Londrina - Técnica em enfermagem, Ana Glória fuma há 20 anos e diz que trabalha com muitos colegas profissionais de saúde que compartilham do mesmo vício. "Todo mundo sabe do risco, mas todo mundo corre", afirmou. Ela garante que todo dia tenta largar o cigarro, mas não consegue. "O máximo que consegui ficar sem fumar foram dois dias", confessou. Se pudesse escolher, Ana certamente optaria por nunca ter iniciado o vício. E ela não está sozinha.
Pesquisa extraída de um projeto internacional que avalia políticas de controle do tabaco (ITC), divulgada pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), aponta que 87% dos brasileiros entrevistados disseram que se arrependem de ter começado a fumar (85% dos homens e 89% das mulheres). Foram ouvidas 1.830 pessoas de três capitais (São Paulo, Rio e Porto Alegre). Dos 20 países que participaram da pesquisa em todo o mundo, o Brasil é o que teve a maior média de fumantes arrependidos na América Latina. Uruguai e México, os outros dois latino-americanos envolvidos no estudo, tiveram médias de 66% e 74%, respectivamente. O maior índice de arrependimento está na Tailândia, com 96% dos homens – as mulheres não foram entrevistadas.
A vice-presidente regional da Sociedade Paranaense de Pneumologia, Janne Stella Takahara,vê aspectos positivos e negativos no resultado da pesquisa. "É bom, porque os que se dizem arrependidos por ter começado a fumar vão orientar outras pessoas do seu convívio. Mas por outro lado é ruim, porque mostra que só se aprende com o erro. Lógico que com a informação a gente consegue diminuir o número de dependentes químicos, mas esse número ainda é muito alto e a gente precisa atuar em cima dessa população em relação à prevenção e à orientação", afirma a pneumologista, que hoje pela manhã participa das ações promovidas pelo Hospital do Coração de Londrina em comemoração ao Dia Mundial sem Tabaco (veja box).
O tabagismo é a maior causa de doenças preventivas no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), anualmente cerca de 5 milhões de pessoas morrem por males causados pelo consumo de cigarro. "Muitas dessas pessoas tinham doenças que elas não precisavam ter se não fumassem", aponta Janne Takahara. Mas se a guerra contra o tabaco está longe de terminar, há batalhas dignas de comemoração. Segundo a pneumologista, pesquisas recentes indicam que o brasileiro está fumando menos. "No Brasil, a prevalência de tabagismo vem caindo. Na década de 80 era de 40% a 50%, hoje, até 2012, há estudos que mostram que a incidência de fumantes é de 16% a 17% da população. O incentivo ao combate ao tabagismo tem surtido bom efeito, por isso a gente faz essas campanhas de orientação sobre os riscos e as consequências da doença", salientou.
O vício em cigarro é uma das coisas que unem o casal Junior Sandi, de 32 anos, e Isabel Cristina Sandi, de 37. Ele fuma desde os 22 anos, ela, há 15. "Já tentamos parar, até jogamos uns maços fora, mas não adiantou. É muito difícil", relatou Isabel, que diz fumar mais de um maço por dia. E por que é tão difícil parar? "Primeiro, porque muita gente fuma, o acesso ao tabagismo é muito fácil. Além disso, o cigarro é composto por 5 mil produtos diferentes, dos quais mil deles são tóxicos. O que gera a dependência química é a nicotina, e uma dependência muito rápida. Quando você traga um cigarro, a nicotina chega em oito segundos ao cérebro. Se eu introduzisse a nicotina endovenosa iria demorar três minutos. O pulmão é um órgão que absorve muita nicotina; rapidamente ela é circulada e rapidamente chega ao cérebro, e aí causa muita dependência. Por isso que é tão difícil combater esse tipo de doença", explica Janne Takahara.
A boa notícia para o fumante, arrependido ou não, é que o vício não é invencível. "É difícil parar, mas não impossível. Existem tratamentos, basta que o indivíduo queira parar de fumar", apontou a pneumologista. Ela diz que o trabalho de combate ao tabagismo deve ser feito de forma multidisciplinar, envolvendo médicos, psicólogos e nutricionistas, e que há tratamentos em grupos bancados inclusive pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

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