Londrina – De cada oito crianças e adolescentes que hoje estão em abrigos no Brasil, sete possuem família. É o que revela mapeamento feito pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). O estudo foi feito com base na inspeção de 86% das entidades que abrigam esses menores de 18 anos. E aponta ainda que, apesar disso, 77% dos 45 mil abrigados não receberam visita dos pais nos últimos dois meses. Outro problema é que um terço está nas instituições há mais de dois anos, limite máximo estabelecido por lei.
Em Londrina, a realidade das quatro entidades que atendem 156 crianças e adolescentes não é diferente. "A maioria tem família realmente, às vezes se não tem a mãe ou o pai, mas há um tio, uma tia, os avós. E o nosso trabalho é para reinserir essa criança no convívio familiar", explica Regina Célia Almeida, presidente da Casa de Maria, que atende 36 adolescentes em três abrigos.
Apesar de parte dos abrigados ter família, o retorno ao lar nem sempre é fácil e por isso o processo se torna demorado. "Se a criança chegou ao abrigo é porque todas as outras ações falharam. A violência está intrínseca nessas crianças e por isso é necessário um trabalho de toda a rede para esta inserção", relata a coordenadora Lídia da Conceição Loback, do Núcleo Social e Evangélico de Londrina (Nuselon), entidade que abriga 42 crianças e adolescentes em quatro unidades. "Alguns estão conosco há mais de dez anos. Mas hoje existe uma reavaliação pelo menos duas vezes ao ano por parte da Justiça. Há um trabalho forte para promover a reinserção", acrescenta.
A adolescente G., de 14 anos, vive a realidade de não conseguir voltar ao convívio familiar. Ela foi para um abrigo ainda criança por causa do alcoolismo da mãe. Ao retornar para casa, a menina e a irmã mais velha passaram a ser violentadas e molestadas pelo padrasto. "A minha irmã resolveu falar o que acontecia e vim para outro abrigo onde estou há mais de dois anos", conta a menina, que sonha em ser geriatra.
C.E., de 8 anos, mora com dois irmãos em um abrigo e viu os pais se separarem em virtude do alcoolismo do pai. "Ele trocava todas as coisas da casa por bebida e droga", conta. O menino revela que tem saudades da mãe e dos demais irmãos. "Antes ela vinha me visitar sempre, agora faz tempo", lamenta. Situação que é comum entre os abrigados. "Eles realmente sentem a falta das visitas das famílias e se entristecem quando não aparece ninguém", confirma Regina Almeida.
A família de J., 8 anos, também foi desestruturada pelo vício. O pai, alcoólatra, se separou da esposa. Com isso, três filhos foram para abrigos e outros três passaram a morar com parentes. "Se os dois voltassem a morar juntos eu gostaria de ir para casa de novo. Assim um ajudaria o outro", idealiza o garoto.
De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social, os principais motivos que levam as crianças e adolescentes de Londrina para o acolhimento são negligência dos pais associada ao uso de drogas ou álcool, negligência familiar, abuso e violência sexual e abandono.
"Essas crianças são vítimas de um contexto familiar e chegam muito fragilizadas. As menores até que não querem ir embora, pois são bem tratadas. Já os mais velhos não querem ficar, já que precisam respeitar regras, horários e normas. É uma luta para controlá-los", conta Regina Célia Almeida.(Com Agência Estado)

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