Recife, 22 (AE) - Consumidores de drogas desde os 13 anos, sem religião, com vida sexual iniciada entre os 10 e 13 anos, mais de 70% fora da escola, 85% com parentes envolvidos com o crime, 79% são filhos de pais separados. Violentos, sem planos para o futuro e nenhum respeito à vida, nem a deles próprios nem a dos outros.
Esse é o perfil do jovem infrator interno em instituições públicas por prática de crimes graves como homicídio, assalto a mão armada, lesão corporal, estupro e atentado violento ao pudor, revelado por uma pesquisa feita entre abril de 1997 e outubro de 1998, financiada pelo Ministério da Justiça e a Unesco.
Coordenada pela pesquisadora da Fundação Instituto Osvaldo Cruz (Fiocruz), a médica Simone Gonçalves de Assis, a pesquisa, divulgada ontem (21), também incluiu irmãos ou primos não-infratores dos que cometeram atos violentos. O objetivo foi tentar identificar o que levou pessoas do mesmo meio a tomar caminhos distintos, a fim de tentar prevenir a delinquência.
Foram entrevistados 92 jovens - 61 infratores e 31 não-infratores - no Rio de Janeiro e no Recife. Em todos os casos, a pobreza e a exclusão social, a ausência das mães, que precisam trabalhar, a ausência dos pais, por morte ou abandono, foram constantes, assim como uma história familiar marcada por problemas de saúde como aids, câncer, alcoolismo e sequelas por ferimentos à bala e acidentes, e também violências sofridas por parentes - suicídios, irmãos carbonizados por brincadeira com álcool, espancamentos.
Família - Apesar da fragilidade da família desses jovens
ela representa a única instituição em que eles depositam alguma confiança. "Ficou patente a falha das instituições públicas e da sociedade para apoiar e proteger o jovem, facilitando sua entrada no mundo infracional", observou Simone.
Segundo ela, um ponto que difere os infratores dos seus irmãos ou primos não-infratores é o fato de que os delinquentes são normalmente mais novos e tiveram poucos limites de ação - seja pela ausência ou pela indulgência dos pais. Ao contrário do não-infrator, que critica a violência vivida em casa, os infratores a incorporam. Eles também começam a usar drogas muito cedo e relacionam-se com grupos ligados ao crime, enquanto os não-infratores evitam tanto o mundo das drogas como as galeras e quadrilhas.
Os resultados da pesquisa foram discutidos no Recife, com os envolvidos com o assunto - polícias, Ministério Público e organizações não-governamentais. O mesmo será feito no Rio, no dia 30, e em Brasília, no dia 13.

mockup