Brasília, 08 (AE) - Estudo inédito do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), divulgado hoje, revela que 75% dos parques e reservas nacionais do Brasil estão ameaçados por uma combinação de falta de implementação com alta vulnerabilidade à ação do homem. No relatório "áreas Protegidas ou Espaços Ameaçados" foram analisadas 86 unidades de conservação federais de uso indireto criadas há mais de seis anos - parques nacionais, reservas biológicas e ecológicas e estações ecológicas, onde é proibido o uso dos recursos naturais. O relatório foi encaminhado ao Ministério do Meio Ambiente.
Das 86 unidades, apenas sete (8%) foram consideradas razoavelmente implementadas, enquanto 47 (55%) estão em situação precária e 32 (37%) foram consideradas minimamente implementadas. Para o WWF, ao mesmo tempo em que o Brasil é um dos países com a maior biodiversidade no mundo, é também um dos que menos protegem sua natureza.
O resultado desse estudo dos parques e reservas demonstra que a área efetivamente protegida no País é muito menor do que o indicado nas estatísticas oficiais: as 86 unidades de conservação protegeriam, somadas, 1,85% do território nacional, mas descontando-se os parques e reservas em situação precária, o total efetivamente protegido cai para apenas 0,4%. De acordo com o WWF, isso coloca o Brasil bem abaixo da média mundial,de 6%.
O estudo do WWF, feito com dados coletados entre os chefes das unidades de conservação em abril de 1998, demonstra que os parques e reservas no Brasil não cumprem seu papel básico de proteger mananciais e espécies ameaçadas, servir de local para pesquisa científica e, em certos casos, permitir o contato com a natureza por meio do ecoturismo e educação ambiental. Um exemplo de unidade muito vulnerável é o Parque Nacional de Monte Pascoal (BA) - uma das poucas reservas de Mata Atlântica que restam no País, onde o desmatamento e a ocupação de terra ao redor das unidades para uso urbano e atividade agropecuária converteram grande parte das áreas em verdadeiras ilhas florestais.
Reisco normal - Com base nos dados coletados, o relatório do WWF agrupou as 86 unidades em quatro blocos segundo o grau de ameaça enfrentado: quanto maior for a vulnerabilidade e menor a implementação maior o risco que o parque ou reserva está correndo. De acordo com o WWF, das 86 unidades de conservação somente 22 estão em situação de risco normal.
Entre elas os Parques Nacionais da Chapada dos Veadeiros (GO), da Serra da Canastra (MG), da Serra do Cipó (MG), de Aparados da Serra (RS), de Sete Cidades (PI) e do Pantanal Matogrossense (MT), as Estações Ecológicas de Aiuaba (CE), de Anavilhanas (AM), Guaraqueçaba (PR), Iquê-Juruena (MT), Maracá (RR), Maracá-Jipioca (AP), Niquiá (RR), Pirapitinga (MG), Rio Acre (AC) e Seridó e as Reservas Biológicas Augusto Ruschi (ES), Comboios (ES), Atol das Rocas (RN), Rio Trombetas (PA), Jaru (RO) e Sooretama (ES).
Outras 27 unidades de conservação enfrentam risco mediano, 17 estão sob risco alto e 20 correm risco extremo. Entre as unidades sob risco extremo estão os Parques Nacionais da Chapada dos Guimarães, da Chapada Diamantina, de Ilha Grande e de Abrolhos. Na categoria alto risco estão o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, os Parques Nacionais de Brasília
da Tijuca, das Emas, de Itatiaia, de Monte Pascoal, de Caparaó e da Serra dos àrgãos e as Reservas Biológicas de Una e de Poço das Antas.
Manejo - De acordo com o WWF, os principais problemas constatados em termos de implementação foram a ausência de plano de manejo - documento obrigatório para o planejamento das atividades nos parques - e o número inadequado de funcionários. Há também um grande número de parques e reservas sendo usados de forma incompatível com sua finalidade, e em vários deles as terras sequer foram demarcadas. Outros problemas são o desmatamento e a ocupação da terra ao redor dos parques. Quase todas as unidades apresentam problemas em relação à exploração dos recursos naturais, como a extração ilegal de madeira.
Além da precariedade, as áreas protegidas estão mal distribuídas entre as regiões e os diversos biomas. Na Mata Atlântica, por exemplo, onde há poucos remanescentes florestais e uma pressão populacional crescente e desordenada, as unidades de conservação protegem apenas 1,1% do bioma em termos oficiais. Já na Região Norte, onde se situa a Floresta Amazônica, 3,5% do território estariam teoricamente protegidos. Mas, na prática, o número cai para 0,4% em ambos os casos. Ministério - O diretor-executivo do WWF, Garo Batmanian, considerou o quadro "preocupante, no momento em que as taxas de desmatamento continuam altas e a crise financeira impõe cortes de recursos destinados à área ambiental". A metodologia empregada no relatório foi desenvolvida com o Ibama e o WWF encaminhou o estudo ao Ministério do Meio Ambiente. A entidade promete anunciar nas próximas semanas um conjunto de recomendações e atividades para ajudar a solucionar o problema.

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