70% das UTIs não estão adequadas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Agência Estado 
São Paulo - Cerca de 70% dos 3.500 leitos de Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) no País não estão minimamente adequados ao modelo de humanização considerado ideal por especialistas da área, segundo dados da Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva (Sobrati). Estudos recentes indicam que detalhes simples, como a presença de janela e relógio no quarto para que o paciente tenha noção de tempo e maior contato com familiares durante a internação são decisivos não só para a recuperação mais rápida, mas também para evitar sequelas físicas e psicológicas que podem atrasar o retorno à vida normal.
Durante muito tempo, a única preocupação dos profissionais da área foi salvar vidas. Mas nos últimos 15 anos começou a haver um cuidado com a qualidade de vida do paciente após a internação. Isso está ligado ao aumento da sobrevida, diz Álvaro Réa, presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib). Estudos indicam que muitos pacientes levam de seis a 12 meses para voltar às atividades normais por causa das sequelas.
Segundo o psiquiatra Marcelo Feijó de Melo, da Unifesp, é comum entre pacientes que passaram por longas internações a síndrome do stress prós-traumático. Esse quadro é grave e limita muito a vida do paciente pós-UTI. O índice de licenças e aposentadorias precoces entre os portadores da síndrome chega a 40%, afirma o psiquiatra.
Mas algumas medidas podem minimizar o impacto negativo. Ter a família perto o maior tempo possível é um dos fatores mais importantes apontados por especialistas, bem como o acompanhamento de psicólogos e fisioterapeutas. A presença de relógio e janela no quarto, para que o paciente tenha noção de dia e noite, ajuda o organismo a manter seu ciclo natural. Usar o mínimo de sedação, apenas o suficiente para que o paciente fique confortável, evita que ele sofra alucinações e adquira dificuldades cognitivas em consequência das drogas.
Estimamos que 25% dos brasileiros tenham plano de saúde e, desses, apenas 5% têm acesso a um modelo top de UTI, diz o presidente da Sobrati, Douglas Ferrari. Em todo o País, apenas 30% das UTIs atendem aos requisitos mínimos do modelo ideal de humanização. A maioria não tem psicólogo e limita muito o acesso da família.
Ferrari aponta outro dado alarmante: o déficit de leitos de UTI no País está em torno de 50%. A situação é mais grave na área pediátrica e de neonatologia, onde o déficit chega a 70%. O processo de humanização não estará completo enquanto houver crianças esperando um leito nos corredores de hospitais, num momento em que um respirador faz a diferença entre vida e morte.


