50 anos da visita de Costa e Silva a Londrina
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sexta-feira, 07 de abril de 2017
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

No dia 9 de abril de 1967, o presidente Arthur da Costa e Silva (1967-1969) participou da cerimônia de encerramento da 4ª edição da Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina. O mandatário foi empossado apenas 25 dias antes e a vinda ao Norte do Paraná foi a sua primeira viagem oficial. Recebido com festa pela população, o militar entrou para a história como responsável pela promulgação do Ato Institucional 5. O AI-5 conferiu ao presidente poderes para fechar o Congresso Nacional, cassar políticos e institucionalizar a repressão de movimentos oposicionistas, com o uso de meios legais e ilegais, como tortura contra militantes de esquerda, principalmente os considerados comunistas.
A visita durou pouco. Costa e Silva ficou em Londrina por apenas quatro horas. No entanto, para reforçar a segurança, 240 policiais foram deslocados de Curitiba. Após o desembarque, a comitiva passou pela Avenida Paraná em carreata e foi recepcionada por estudantes, que ficaram perfilados ao longo do trajeto. No Parque Governador Ney Braga, o presidente foi recebido por personalidades da política local e almoçou em uma churrascaria que ficava dentro do parque.
Na sequência, visitou os pavilhões, onde foi a uma das baias para ver um boi de perto e conferiu a exposição agrícola, organizada pela Associação Cultural e Esportiva de Londrina (Acel). Lá encontrou-se com a pequena Evelin Ogata, de apenas 4 anos na época. A garota leu uma mensagem de boas-vindas em nome de todas as crianças londrinenses. "Eu era muito pequena e não me lembro como foi. Sei que aconteceu porque tenho uma foto desse encontro até hoje", revela Evelin.
Quem registrou esse momento foi o ex-editor de fotografia da Folha de Londrina Wagno Barra Rosa, hoje com 81 anos. Ele foi um dos três fotógrafos que participaram da cobertura da visita presidencial. "A equipe de fotógrafos naquela cobertura era formada por mim, pelo Darcy Félix e pelo Tristão Franco", relembra.
Ao ler o jornal da época, Rosa se recorda do episódio. Ele conta que o presidente o chamou para que tirasse uma fotografia dele com Evelin. "Ela estava com uma cesta de frutas e entregou para ele. Depois disse a mensagem de saudação", rememora. Costa e Silva ainda fez o discurso de encerramento do evento. "Passei a tarde inteira ao lado dele, acompanhando a visita. Me posicionei embaixo do palanque para tirar uma fotografia enquanto ele discursava. Quando o anunciaram, o locutor falou que era o presidente da República dos Estados Unidos do Brasil. Mas ele corrigiu dizendo só para mim que o nome do País não era mais aquele." A nomenclatura foi modificada na Constituição de 1967, que dizia que era somente Brasil. Dois anos depois, o nome oficial foi modificado para República Federativa do Brasil.
No discurso, Costa e Silva ressaltou que "os que afirmaram ser a Revolução de 1964 um movimento retrógrado, talvez pelos equívocos do tumulto natural dos primeiros dias, hão de verificar que nós levaremos à vitória". Segundo ele, o regime identificou os que pregavam reformas sem desejá-las e faziam delas instrumentos para "obscuros desígnios que por pouco não entregaram o País à desordem irremediável".
O professor de História, Geraldo Luiz de Souza, explica que Costa e Silva queria passar uma imagem positiva do regime no início do mandato. Por isso, permitia manifestações. Um dos movimentos da época era a Frente Ampla, encabeçada pelo deputado Carlos Lacerda, que inicialmente era favorável ao golpe militar. "Lacerda acabou se opondo ao regime porque percebeu que os militares não iriam realizar eleições diretas. Ele achava que teria chance de ser presidente, pois era uma figura bastante projetada. Mas quando os militares não fizeram a eleição, ele considerou traição e foi buscar os antigos inimigos, como os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart para tentar redemocratizar o País", relembra.
"Uma coisa curiosa é que o movimento da Frente Ampla contou com o apoio de cinco cidades. No ABC paulista, composto por Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, e no Paraná, onde aconteceram comícios em Londrina e Maringá", relata. As manifestações nos dois municípios norte-paranaenses chegaram a reunir 15 mil pessoas em abril de 1968.
"As coisas chegaram ao limite com o posicionamento do deputado Márcio Moreira Alves, quando ele pregou o boicote à comemoração ao 7 de Setembro", aponta. "Se os militares não tomassem um posicionamento, a estrutura toda do regime militar poderia desabar." Foi aí que Costa e Silva promulgou o AI-5, que ampliou significativamente os poderes do presidente e colocou o Congresso em recesso.
Logo após a edição do AI-5, Wagno Rosa e o jornalista Walmor Macarini foram a Brasília para fazer uma reportagem com o então deputado federal José Richa. Constataram que os deputados continuavam recebendo salário, apesar do fechamento do Congresso Nacional. "Todos continuavam fazendo política. Só não havia sessões. Eu não entendia que fechamento de Congresso era aquele em que tudo corria normalmente", afirma Rosa.
Segundo o professor Geraldo Souza, o período da ditadura ainda merece ser alvo de muitos estudos. "Para a mãe que perdeu o filho na ditadura brasileira, foi uma ditadura terrível. Mas aqui não havia um modelo clássico de ditadura como ocorreu no Chile e na Argentina. Olhando o todo, o fato da ditadura militar daqui ter uma base civil, fez com que ela fosse meia boca. Fecharam o Congresso, mas na sequência abriram novamente", destaca. Ele explica que essa base civil era formada por civis apoiadores do regime: políticos e por parte da população. "E mesmo tendo censura, os jornalistas conseguiam driblá-la", expõe.
Durante o governo de Costa e Silva, conta Rosa, um policial federal atuava como censor na redação da Folha de Londrina, vetando matérias consideradas polêmicas. "Mas tinha umas matérias que até hoje não sei por qual motivo eram vetadas. Não atacavam o governo", relembra.
"Cada presidente do regime militar que assumia havia a cobrança de volta da democracia. Me recordo que o Costa e Silva era linha-dura. Eu tinha 32 anos e a gente defendia os movimentos de esquerda. O jornal também defendia, mas quando houve a revolução a redação começou a mudar. Existiam os pró e os contra o governo. Era um momento econômico difícil, pois o País vivia um período em que houve muita turbulência", analisa.
Em 1969, após Costa e Silva sofrer um derrame cerebral, uma junta governativa provisória, também conhecida como a Segunda Junta Militar, assumiu o poder e impediu a posse do jurista Pedro Aleixo. Com a morte de Costa e Silva poucos meses depois, a junta elege Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). "É aí que o regime militar se fecha de vez", conclui Souza.


