49 anos atrás das grades
Londrina - Depois de 28 anos preso e no momento em condicional, José (nome fictício) aceitou contar sua história à Folha de Londrina. O londrinense foi um dos maiores ladrões de bancos e joalherias do País nas décadas de 1970 e 80. Ele fez parte da quadrilha de Shigueru, um descendente de japoneses que se tornou lenda na região e era temido por forças de segurança até ser morto trocando tiros com a polícia no interior de São Paulo no final dos anos 1980.
As histórias de José e de Romildo Rodrigues Martins, o Midão, são exemplos que ajudam a explicar por que as cadeias do País estão sempre superlotadas. Independentemente do crime, milhares de homens e mulheres passam mais tempo na cadeia do que deveriam por falta de celeridade da Justiça e de assistência de advogados, entre outros problemas.
O relato do ex-assaltante, no entanto, é uma demonstração de que o regime fechado é a única solução em determinados casos. ''A nossa gangue era assim. Ninguém aceitava ser preso. Se a polícia aparecesse, a gente descarregava as armas'', conta José, que afirma ter roubado mais de 80 bancos e de 35 joalherias em 18 Estados.
Filho único de uma família de classe média, José se arrepende em parte dos crimes que cometeu. ''Tenho 57 anos, passei praticamente metade da minha vida preso, mas o pior é a tristeza que fiz meus pais passarem. Eles me criaram bem, não precisava ter partido para o crime'', lamenta.
Aos 13 anos ele iniciou sua vida profissional num banco como contínuo. ''Estudei, continuei trabalhando, conclui administração, fiquei amigo do diretor-geral do banco e aos 22 anos assumi a gerência'', recorda. Pouco tempo depois, graças a uma dívida gigantesca, José roubou uma joalheria pela primeira vez.
Por conta de desavenças com a família da esposa, ele fez muitas dívidas. Se fosse hoje, José conta que estaria devendo perto de R$ 500 mil. Apesar da cifra ele foi a uma agência de carros e saiu com um Dodge Magnum, top naquele tempo. A compra acabou cruzando os caminhos de Shigueru e José. ''Fui trocar o escapamento do carro numa mecânica e lá encontrei o Shigueru. A gente conversou, e cheguei a comentar que estava numa situação díficil financeiramente''.
Eles jantaram juntos às margens do Igapó e Shigueru prometeu a José que em apenas um serviço sua dívida poderia ser quitada. Só na véspera ele soube que estava prestes a realizar seu primeiro assalto, em novembro de 1975, em Campinas (SP). A ação rendeu ''uns 50 quilos de ouro em pó, mais as joias, que encheram duas malas.'' O dinheiro dividido foi suficiente para José quitar o que devia e ainda sobrou ''uma dinheirama.''
Em oito anos, José participou de dezenas de assaltos a bancos e joalherias, a maioria como integrante da quadrilha de Shigueru. Gastou a fortuna que roubou em carros, apartamentos na praia, viagens. Só que em março de 1982 ele foi preso. ''A prisão não ensina nada. Aquilo é um submundo. Sempre procurei trabalhar enquanto estive preso'', conta.
José fugiu duas vezes da prisão, em 1998 e 2005. Depois da última fuga, passou quatro anos na PEL II, em regime fechado. Em agosto do ano passado, conseguiu a condicional.
Até o final do ano, ele espera zerar sua pena através de uma comutação. ''Quero sossegar, já abri uma mecânica e vou tentar recuperar um apartamento que possuía e também um frigorífico que tinha em Ibiporã. Pra mim chega, estou velho. Se o Shigueru ou alguém da quadrilha tivesse vivo talvez voltaria. Mas assim não. Vou trabalhar.'' (D.B.)





