Londrina - ''Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.'' Muita gente acrescentaria mais uma frase aos versos da canção: e que vive de férias até o Carnaval. Vamos combinar que é difícil enfrentar a realidade quando o sol do lado da fora do escritório nos convida a tirar o paletó e gravata. Mas o que sempre foi considerado um traço cultural encalacrado no povo brasileiro parece estar mudando. Especialistas observam que o país está curando mais cedo a ressaca das festas de final de ano e voltando ao batente bem antes da folia de fevereiro.
Hoje o país convive com situações bastante distintas. No funcionalismo público, parte dos servidores dos poderes Judiciários, Legislativo e Executivo contam com particularidades incomuns à outros segmentos (leia box). Já os servidores de hospitais públicos, das polícias e outros órgãos veem o trabalho aumentar nestas épocas. Nas escolas estaduais, o expediente na secretaria quase nem foi interrompido e teve de ser retomado ontem. Lembrando que as férias para alunos começaram em 21 de dezembro e vão até 7 de fevereiro, oito dias após o retorno dos professores.
Para boa parte dos mortais, no entanto, resta o consolo de ter alguns dias de folga entre Natal e Ano Novo. As empresas normalmente concedem férias coletivas entre 25 de dezembro e 1º de janeiro e retomam suas atividades logo em seguida. Poucas ampliam o benefício por mais alguns dias. Portanto, para a maioria dos trabalhadores privados o primeiro dia útil do ano foi retomado ontem com força total. No caso dos bancários, por exemplo, mais de 25 mil trabalhadores voltaram suando a camisa para dar conta do movimento acumulado desde o 30 de dezembro.
Ainda assim é recorrente a fala de que no Brasil só se começa a trabalhar depois do Carnaval. Dados como os propalados anualmente pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) corroboram com esta ideia ao calcular que em 2009 - que teve 11 feriados nacionais em dias úteis -, os dias parados geraram perda de até R$ 155,6 bilhões (5% do PIB). Para 2010 deverão entrar nesta conta, além dos 12 feriados nacionais, a Copa do Mundo da África entre junho e julho e as eleições presidenciais em outubro.
Quem analisa a economia adverte que é possível ter cautela com contas como as da Firjan. O economista do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos do Paraná (Dieese-PR), Sandro Silva, avalia que no início de ano a economia sofre desacelaração natural, mas que isso não é o fim do caminho. ''O empresariado acha ruim porque reduz a produção, mas outros setores da economia se beneficiam. Sem contar que todo trabalhador necessita de descanso e de lazer'', analisa. ''Para os bancários e para muitas outras categorias, os primeiros dias do ano são violentíssimos. O Brasil não para'', reforça o presidente da Federação dos Bancários do Paraná, Gladir Basso.
Neste sentido, a consultora de RH, Cristiane Zagui, afirma que o Brasil parece ter atingido uma ''maturidade econômica''. ''Temos que perder essa ideia negativa sobre o nosso próprio desenvolvimento. Tem muita coisa acontecendo nesse período. É obvio que alguns setores desaceleram, mas as empresas estão se planejando antes do fim do ano e já começam janeiro aceleradas'', avisa a especialista. Confirmando a análise, o Sistema Público de Emprego do Paraná divulgou que ontem estavam disponíveis 6,3 mil oportunidades de emprego em todo o Estado.

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