Londrina - Proporcionalmente, as mulheres sofrem mais com a violência praticada com armas brancas do que os homens no Brasil. Segundo o estudo Mapa da Violência, coordenado pelo pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz, nos homicídios praticados em todo o País em 2010, 20,8% dos homens assassinados foram mortos com arma branca; entre as mulheres, esse meio respondeu por 34,3% dos homicídios.
Em 2005, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, do governo federal, lançou uma cartilha com orientações para profissionais e voluntários que atuam no enfrentamento à violência contra a mulher. Na parte do documento que trata da necessidade de traçar estratégias de segurança junto às vítimas, a cartilha recomenda que, em momentos de agressão, a mulher evite fugir para locais onde haja facas, objetos perigosos, superfícies cortantes e espaço reduzido, como cozinha e banheiro, e para que nunca use armas para ameaçar o agressor, já que elas podem facilmente se voltar contra a vítima.
A estudante Kelly Telles, de 32 anos, foi esfaqueada quando saía da Delegacia da Mulher de Londrina pelo ex-companheiro, com quem manteve um relacionamento de 15 anos e teve três filhos. A tentativa de homicídio ocorreu em novembro do ano passado. Kelly relata que o ex-companheiro sempre foi violento, mas as agressões se tornaram mais graves quando ela pediu a separação, em outubro. De lá até o episódio na delegacia, ela foi vítima de outras três tentativas de homicídio. O ex-companheiro foi proibido pela Justiça de se aproximar de Kelly, mas desrespeitava a ordem.
No dia em que foi esfaqueada, a estudante havia ido até a delegacia com o filho, que havia testemunhado uma das agressões e prestaria depoimento. "Não sei como ele (o ex-companheiro) soube que a gente estaria lá", diz Kelly. Ela foi atingida com 17 facadas, nas mãos, costas e braços. Ficou hospitalizada por seis dias e passou por cirurgia. O ex-companheiro foi detido e permanecia preso até a semana passada.
Kelly convive com as sequelas físicas e emocionais. Ela teve perda de sensibilidade e movimento nas mãos. Faz fisioterapia duas vezes por semana e deve passar por outra cirurgia. "Vão ser dois anos de tratamento, mas a recuperação não deve ser 100%", descreve. A estudante teve um pulmão perfurado e ainda fala com rouquidão.
"Estou fazendo também tratamento psicológico e tentando colocar a vida em ordem. Agora as crianças estão se acalmando e as coisas estão seguindo em frente", explica. Kelly tem receio, entretanto, do que vai acontecer quando o ex-companheiro sair da prisão. "A lei tem muitas brechas. Além disso, algum nível de convivência vamos ter, porque temos três filhos. Não sei como vai ser", afirma. (F.G.)

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