Londrina – Dos 370 mil usuários de crack nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal, 14% são menores de idade. Os dados fazem parte do levantamento da Estimativa do Número de Usuários de Crack e/ou Similares nas Capitais do País, divulgada ontem pelos ministérios da Justiça e da Saúde. A pesquisa foi encomendada pela Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad) à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que ouviu 25 mil pessoas entre março e dezembro de 2012.
Isso indica que aproximadamente 50 mil crianças e adolescentes usam regularmente crack ou outras formas similares de cocaína fumada (pasta-base, merla e oxi) nas capitais do país. A maior parte deles (56%) está concentrada nas capitais do Nordeste, onde foram identificados 28 mil menores nesta situação, o que representa 23% do total de viciados na região.
Em seguida, vêm o Sudeste, com 13 mil crianças e jovens, o Centro-Oeste, com seis mil, e o Sul e o Norte, com três mil menores de 18 anos.
A pesquisadora Clarice Madruga, da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (Uniad), ligada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), aponta que esta realidade expõe um problema social grave no Brasil, que é a vulnerabilidade desses menores em situação de rua. De acordo com a pesquisadora, quanto mais cedo o acesso ao crack mais difícil é o tratamento e mais danosa são as consequências. "O consumo de drogas vai causar danos permanentes no cérebro desses menores, além de expor aos riscos de doenças respiratórias. Quanto mais jovem se começa na droga, mais difícil vai ser a tomada de decisão para abandonar o vício. É um risco para a vida toda", alertou.

Solvente
Clarice coordenou em 2012 o 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, em que foram ouvidas 4.607 pessoas acima de 14 anos, em todos os estados brasileiros, que apontou outro grave problema para a infância brasileira: 1,2% dos adolescentes entrevistados admitiram ter consumido algum tipo de solvente, como cola e tíner, no último ano. "Pouco se fala deste problema hoje no Brasil. Mas, este número é maior do que o total de menores que consomem crack no país. O consumo de solvente é tão danoso quanto o uso do crack e confirma a vulnerabilidade social dos menores", ressaltou.
Considerada uma população oculta e de difícil acesso, os 370 mil usuários de crack representam 35% do total de consumidores de drogas ilícitas, com exceção da maconha, nas capitais, estimado em 1 milhão de brasileiros.
Para o secretário nacional de Políticas sobre Drogas do Ministério da Justiça, Vitore Maximiano, o número de usuários regulares desse tipo de droga é "expressivo", embora corresponda a 0,8% da população das capitais (45 milhões).
De acordo com o estudo, no Nordeste há aproximadamente 150 mil usuários de crack, cerca de 40% do total de pessoas que fazem uso regular da droga em todas as capitais do país.
"Esse é um achado que surpreende: a presença de um forte consumo no Nordeste e também, proporcionalmente, no Sul [onde há 37 mil usuários de crack]. No Nordeste, acreditamos que seja em razão do próprio IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) mais baixo, quando equiparado nacionalmente", disse. "Já em relação ao Sul, verificamos um componente histórico, uma vez que tradicionalmente há na região um maior uso de drogas injetáveis, cujo índice no país é muito baixo, mas sempre com maior predominância por lá", acrescentou.

Estrutura precária
O levantamento mostrou ainda que das usuárias brasileiras de crack, 22,8% já ficaram grávidas ao menos duas vezes desde que começaram a usar a droga. Segundo o perfil, os homens consomem crack por uma média de 83,9 meses, enquanto que as mulheres usam por 72,8 meses. Entretanto, as mulheres consomem mais pedras por dia do que os homens: 21, em média, contra 13.
Outro dado da pesquisa é que 78,9% dos usuários regulares de crack querem ser submetidos a tratamento contra o uso da substância. Porém, o acesso aos serviços disponíveis, como centros e postos de saúde, é pequeno. "Ainda temos uma estrutura precária, a rede de serviços não está conectada. Quando um usuário decide procurar ajuda, o tratamento tem que ser imediato. Não adianta ele ir a um posto e marcarem uma consulta para daqui a uma semana. Neste período ele volta para as drogas. A rede tem que estar pronta quando é procurada", afirmou Clarice.(Com agências)

Imagem ilustrativa da imagem 14% dos usuários de crack são menores
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