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segunda-feira, 29 de novembro de 1999
Por Mariângela Gallucci e Sonia Cristina Silva 
Brasília, 29 (AE) - O especialista norte-americano em finanças internacionais Stanley Morris disse hoje que as autoridades brasileiras devem preocupar-se com a lavagem de dinheiro proveniente de corrupção. "A grande parte dos países dá maior importância à lavagem de dinheiro do tráfico de drogas e isso é um erro grave, pois a corrupção propicia mais recursos do que o tráfico", disse Morris, durante o Seminário Internacional sobre Lavagem de Dinheiro. De acordo com a última estimativa feita pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), de 2% a 5% do dinheiro que circula no mundo têm origem ilícita. No Brasil, há uma estimativa frágil de que o porcentual é de 3%.
Segundo o norte-americano, os países do hemisfério sul estão mais interessados no combate da lavagem de dinheiro originário do tráfico. Ele concorda que o narcotráfico é uma grande fonte de recursos que podem ser lavados, mas os países do hemisfério norte têm hoje uma preocupação grande com a corrupção. "Instituições como o FMI e o Banco Mundial têm interesse no combate à lavagem de dinheiro da corrupção", disse.
Para o presidente do Grupo de Ação Financeira sobre Lavagem de Dinheiro da OCDE (grupo dos países desenvolvidos), Gilmar Galvão, nenhum país poderia esquecer os fundos resultantes da corrupção. "Ela é um crime antecedente importante, que cria recursos elevados que precisam ser lavados", explicou.
A presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Adrienne Senna, concorda que a corrupção é um enfoque do crime de lavagem. "Estamos atualizados porque a nossa lei prevê a lavagem de dinheiro do narcotráfico e da corrupção", lembrou. Segundo ela, a ferramenta utilizada para investigar a lavagem é a mesma nos dois casos. "Combatendo a lavagem, combate-se a corrupção."
CPI - Stanley Morris considera que nos últimos dois anos o Brasil tem evoluído no combate à lavagem de dinheiro. Ele não conhece em profundidade o trabalho da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico da Câmara, mas, segundo ele, nos Estados Unidos, essas CPIs servem para sensibilizar as agências do governo sobre a importância do assunto. "Se o público sente que existe importância, deve haver consequências", advertiu Morris. "Se não dá resultados, acaba em ceticismo", concluiu.
A presidente do Coaf diz que o relatório final da CPI será utilizado como subsídio para o trabalho de investigação comandado por ela. Atualmente, Adrienne atua na avaliação de 288 comunicações de transações suspeitas de empresas de bingo, factoring, arte e comercialização de jóias e imobiliárias. Outros 38 processos foram iniciados a partir da troca de informações entre países.
Durante o seminário, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim mandou um recado aos juízes. Jobim disse que eles não poderão apenas julgar os processos, mas terão de participar como agentes para tentar coibir a lavagem de dinheiro. "É preciso preparar a cultura judicial para as negociações com criminosos", afirmou.


