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segunda-feira, 29 de novembro de 1999
Por Renan Antunes de Oliveira, especial para a AE 
Nova York, 29 (AE) - A última polêmica de Nova York diz respeito a uma das virtudes tradicionais da capital do mundo, a de oferecer completo anonimato a seus habitantes, mesmo os mais famosos.
Os Kennedys, Madonna, Muhammad Ali e as Spice Girls podiam andar de bicicleta pela rua, tomar café em padarias e circular pelo Central Park - no máximo, eram seguidos por paparazzi.
Esse tempo de anonimato acabou. Da Rua 72, ao norte, para Wall Street, ao sul, ao longo de 70 quarteirões, há 2.400 câmeras de vigilância nas ruas. É impossível escapar da rede de câmeras, instaladas por empresas privadas, em edifícios residenciais e em prédios públicos.
Mais: há câmeras escondidas nos postes de iluminação de Washington Square, a praça da Universidade de Nova York, onde os estudantes fumam maconha durante o dia - um deles foi preso 70 vezes, até descobrir de que maneira estava sendo denunciado.
Macys, Blockbuster, Starbucks e a maioria dos grandes magazines mantêm seus clientes sob a vigilância de câmeras escondidas, manipuladas por agentes. Arranha-céus são usados por empresas de segurança para monitorar pessoas nas calçadas, com lentes potentes.
ONG - Agora, uma organização não-governamental (ONG) de cidadãos preocupados com a perda do anonimato iniciou um movimento contra as câmeras, usando um web site. Eles estão fazendo um levantamento do número de equipamentos e identificando suas posições, para comprovar excessos. O objetivo é iniciar uma campanha para mudar a legislação, antes que a cidade acabe como Londres, campeã mundial da vigilância eletrônica - calcula-se que uma pessoa que circula nas ruas da capital britânica passe por 300 câmaras por dia.
Hoje, já é proibido gravar uma conversa sem o consentimento das pessoas envolvidas em Nova York. Mas, como a técnica dos vídeos é relativamente recente, a gravação de imagens é livre.
Mark Ghunein, um executivo do mercado da música, é o pai do movimento de reação. A preocupação dele não é mais com Big Brother, a vigilância eletrônica numa sociedade do futuro imaginada pelo escritor inglês George Orwell no clássico 1984. O que Ghunein quer é "apenas o direito de caminhar pelo Central Park no anonimato".
"Se uma pessoa não pode fazer isso nem neste lugar, onde mais vai conseguir?"
A campanha do executivo começou em 1997. Ghunein alistou estudantes como voluntários para fazer o balanço das câmeras existentes. O número cresce todos os dias. E não estão incluídas milhares de outras, instaladas em elevadores e no saguão interno de edifícios privados.
"Hoje, é impossível para alguém escapar desse olhar eletrônico indiscreto", diz Ghunein. "As virtudes possíveis da existência das câmeras como segurança contra criminosos já perdem em muito pelo que isso ofende as pessoas inocentes, tornando todo cidadão um suspeito."
O prefeito Rudolph Giuliani tem pairado acima da discussão: está ampliando um programa de instalação de câmeras em plataformas do metrô, em ônibus e escolas.
Os militantes do anonimato conseguiram o apoio da New York Civil Liberties Union, a ONG mais poderosa da cidade. "É preciso que a sociedade nova-iorquina pare de instalar câmeras e abra um debate sobre elas", diz Sara Martin, uma das ativistas.
Na contramão da mobilização, as empresas de eletrônicos estão oferecendo sistemas completos de vigilância (câmera e monitor em circuito fechado) por preços próximos de US$ 200,00, com demanda crescente. A última moda de residências e escritórios é recorrer a câmeras falsas, de apenas US$ 8,00. Elas não gravam, mas todos se comportam como se estivessem sendo filmados.


