Kuala Lumpur, 29 (AE) - Mahathir Muhamad - "dr. M." para os malaios - não está há 18 anos no poder por nada. As eleições parlamentares de ontem foram um verdadeiro referendo sobre sua performance como primeiro-ministro da Malásia e autoproclamado defensor do mundo em desenvolvimento. Foram também uma etapa crucial para determinar a futura inclinação político-econômica da ásia.
Os primeiros resultados parciais na madrugada de hoje - horário local - indicavam que a coalizão multiétnica dominante, a Frente Nacional, obteve pelo menos 109 das 193 cadeiras do Parlamento. Mahathir queria a qualquer custo um mandato popular para continuar sua "Visão 2020" de uma Malásia desenvolvida e high tech.
A Frente Nacional obteve maioria absoluta nas eleições legislativas, mas pela primeira vez em três décadas, confrontava-se com a possibilidade de perder sua maioria de dois terços no Parlamento - o que lhe permite emendar a Constituição. E pela primeira vez desde a independência da Malásia, em 1957, a oposição estava unida.
Com o estridente nacionalismo de Mahathir e sua coalizão firmes no poder, a principal diretriz política na Malásia é reduzir a influência do Ocidente.
As eleições foram um referendo sobre Mahathir por causa de sua implacável destruição, desde setembro de 1998, do ex-vice-primeiro ministro Anwar Ibrahim - processo que causou uma fissão nuclear entre o partido de Mahathir e a dominante comunidade muçulmana.
Anwar, na versão oficial, foi eliminado por causa de abuso de poder e acusações de sodomia: cumpre no momento pena de 6 anos por corrupção, e seu segundo julgamento foi adiado indefinidamente. O julgamento inicial desceu a níveis hollywoodianos de barbárie - e o Judiciário malaio virou picadinho na mídia global.
A oposição - e a comunidade internacional - ainda sustentam a tese da conspiração política: Anwar foi imolado porque criticava Mahathir, especialmente sua decisão de impor controles de fluxo de capital em 1998.
A cereja no bolo, no entanto, é uma informação de fonte segura que circula entre os meios diplomáticos: Mahathir tinha certeza absoluta de aniquilar Anwar porque teria acesso - via conexões japonesas - a um explosivo vídeo de Anwar em um bordel em Tóquio. Mahathir convocou estas eleições há apenas duas semanas - embalado pela recuperação econômica da ásia -, mas tomou todas as precauções para não ser surpreendido pela oposição. O governo partiu para uma luta livre na lama - incluindo cestas de anúncios de página inteira, todos os dias, na emasculada imprensa nacional, equiparando votar na oposição a anarquia.
Usando alguns ministros, Mahathir até acusou a oposição de receber dinheiro do Ocidente - especificamente das Embaixadas dos EUA, Canadá, Inglaterra e Austrália. A líder não-oficial da oposição é Wan Azizah, mulher de Anwar, eleita para a cadeira do marido em Parmatang Pahu, derrotando um candidato de Mahathir.
Mahathir fez uma campanha infatigável, chegando até mesmo a cancelar sua viagem à cúpula da Asean em Manila - onde o Sudeste Asiático começou a sonhar com um bloco monetário pan-asiático para contrabalançar a hegemonia americana: idéia, diga-se de passagem, do próprio "dr. M.".
Para conquistar o voto chinês, ele convidou o primeiro-ministro Zhu Rongji para uma oportuna visita à Malásia. E para reconciliar-se com os muçulmanos, até chegou a declarar à imprensa japonesa que o terrorismo "é a única opção dos muçulmanos em um mundo hegemônico".
A hegemonia é exercida pelo pesadelo do "dr. M" - o capitalismo e a mídia anglo-americanos. Mas ele martelou o mesmo tema durante toda a campanha: por causa de sua liderança, a Malásia agora está "livre para opor-se ao uso da agenda da globalização para controlar o país", e está "livre de levar sermão de estrangeiros".
Na ásia, todo mundo que conta percebeu o sucesso de Mahathir em rejeitar as receitas do Fundo Monetário Internacional. E, finalmente, todo mundo começa a prestar atenção a sua idéia do Fundo Monetário do Leste da ásia, que uniria os asiáticos para contrabalançar o controle americano do sistema financeiro internacional.
A Malásia teria todas as razões para considerar-se um país tropical abençoado por Deus - além de Confúcio, Vishnu e Maomé. Plena de riquezas naturais, é uma encruzilhada dos universos malaio (60% da população), chinês (25%) e hindu (10%). Já é um dos mais desenvolvidos entre os países em desenvolvimento.
Em apenas uma geração, foi transportada de uma agro-economia baseada em commodities para uma economia altamente industrializada - e já se posicionando para competir com líderes globais em tecnologia da informação: o governo não disfarça seu orgulho ao promover seu supercorredor multimídia - a versão malaia do Silicon Valley norte-americano.
O aspecto visionário de Mahathir, no entanto, vem acompanhado de uma bagagem faraônica. Os acessos de megalomania do "dr. M." incluem as torres da Petronas - por enquanto as mais altas do mundo -, uma capital high tech (Putrajaya), uma montadora de veículos totalmente nacional (Proton) e um circuito de Fórmula 1.
Os reformistas arrasaram com esses desperdícios de dinheiro, mas os eleitores estavam mais impressionados com a fulminante recuperação da Malásia da crise asiática.
O PIB contraiu-se 7,5% em 1998, mas deve crescer 4,3% este ano e 5% em 2000. No terceiro trimestre deste ano, cresceu espantosos 8,1% - o índice mais alto de toda a ásia. A Malásia praticamente tem pleno emprego, 2 milhões de trabalhadores imigrantes - do Sudeste da ásia e subcontinente indiano - e inflação abaixo de 3%. As reservas em moeda estrangeira estão 50% mais altas do que em 1998. Um orçamento generoso permite gastos em educação e infra-estrutura.
É instrutivo notar que os eleitores da Malásia - ao contrário de jovens democracias como Coréia do Sul, Tailândia e Indonésia - podem ter preferido, por enquanto, arquivar os sonhos de "reformasi". Para eles, "segurança" - como insiste a máquina política de Mahathir - valeria mais do que princípios e liberdades individuais. O analista político Shiva Anandan discorda: "Estas eleições foram um caso de um eleitorado politicamente atento, mal servido por partidos políticos apenas interessados em assassinato de caráter."
A "segurança" atual é ilusória. A Malásia precisa de formidáveis investimentos para entrar em seu novo estágio high tech.
Analistas em Hong Kong falam de uma atual aparência de "boom" - mais uma bolha econômica. E o cientista político Chandra Muzzaffar - candidato de oposição nas eleições - resume todo o dilema em apenas uma frase: "Precisamos de crescimento, mas com justiça."





