Montevidéu, 29 (AE) - Jorge Batlle, ao contrário do atual presidente, Julio María Sanguinetti, é um liberal ortodoxo. Enquanto Sanguinetti é mais identificado, dentro do espectro do Partido Colorado, como "social-democrata", Batlle persegue o ideal do Estado mínimo.
Ideologicamente, o presidente eleito está bem mais próximo do que o líder blanco Luis Alberto Lacalle do que de seu grande rival dentro do Partido Colorado.
Em 1992, quando Lacalle era presidente, o governo conseguiu aprovar no Parlamento, com apoio dos colorados, um programa de privatização, que começaria com a estatal das comunicações Antel. Parte da opinião pública se voltou contra o programa e o governo acatou proposta da Frente Ampla de realizar um referendo.
Sanguinetti se colocou a favor do "não" - que venceu. Até hoje, Batlle mantém sua convicção privatista. Num de seus muitos ímpetos de liberalismo radical - sobretudo para os padrões uruguaios -, Batlle, quando disputou a presidência com Lacalle, em 1989, propôs vender o ouro do Uruguai para pagar a dívida externa, causando estupor nos mais conservadores. Lacalle venceu a eleição. Desta vez, duas semanas antes do primeiro turno, numa reunião a portas fechadas com a equipe de campanha, Batlle propôs incluir no programa a desvinculação entre os benefícios dos aposentados e pensionistas e o salário mínimo.
A proposta vazou para a imprensa e a cúpula colorada teve de se apressar a desmenti-la. A vinculação entre a aposentadoria e o salário foi aprovada em plebiscito, em 1994, apesar da oposição, na época, de colorados e blancos. O aumento que ela provocou na renda da classe baixa, no entanto, levou a uma redução de 3 a 4 pontos porcentuais na proporção de uruguaios abaixo da linha de pobreza, que hoje é de 6%. Nenhuma consideração sobre aumento do déficit público é eleitoralmente mais forte do que um dado social como esse.
Batlle, no entanto, cultiva a imagem do homem que diz o que pensa. Mais de uma vez atacou a "submissão" do Uruguai ao Brasil e à Argentina e se indispôs contra o Mercosul. "Desta vez, até que a cúpula da campanha conseguiu enquadrá-lo bem", diz a cientista política María Elena Laurnaga.
Com seu liberalismo Batlle, rompeu a tradição de seus antepassados no partido. Seu tio-avô, José Batlle y Ordoñez, que presidiu o Uruguai entre 1903 e 1911, foi o precursor do Estado de Bem-Estar Social que levou o país a ser apelidado de "Suíça da América do Sul". E seu pai, Luis Batlle Berres, presidente de 1947 a 1951, preconizava o modelo de Estado interventor, patrimonialista e protetor. Ideologicamente, Sanguinetti é mais herdeiro da tradição "batllista" do que Jorge Batlle.
No entanto, o peso desse emblema é tão forte que quase todos os colorados se declaram "batllistas". A nomenclatura é confusa dentro do partido. Batlle dirige a corrente Batllismo Radical, enquanto Sanguinetti lidera o grupo majoritário Foro Batllista.
Embora em minoria, Batlle derrotou, na disputa interna do partido, em abril, o candidato de Sanguinetti, Luis Guillermo Hierro, que ficou como vice em sua chapa. Uma hipótese para explicar esse contra-senso: como qualquer eleitor pode votar nas internas, alguns analistas suspeitam que blancos tenham ajudado a nomear Battle - que já havia perdido quatro eleições presidenciais - por julgarem que ele era mais fácil de derrotar.

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