Montevidéu, 29 (AE-IPS) - Assegurar a tolerância, o respeito, a harmonia e a paz. Estes são, segundo suas próprias palavras, os primeiros objetivos do presidente eleito do Uruguai, Jorge Batlle. O veterano político de 72 anos, do Partido Colorado (centro-direita), ganhou a presidência do país após quatro tentativas. A primeira vez que Batlle quis ser presidente foi em 1966. Foi derrotado e tentou em 71, 89 e 94, igualmente sem sucesso. Todavia, sempre conseguiu manter influência em todos os governos.
O segundo turno das eleições foi realizado ontem. O presidente assumirá em 1º de março. O país que Batlle governará deve ter este ano uma queda de 2% no PIB, com o desemprego atingindo 11,4% da população economicamente ativa. Mesmo assim, a nota dada ao Uruguai pelas agências internacionais de qualificação de risco de investimento só é superada na América Latina pelo Chile.
Uma das principais razões para a derrota de Tabaré Vázquez, do esquerdista Encontro Progressista-Frente Ampla (EP-FA) foi o apoio dado a Batlle pelo Partido Nacional, do ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-1995) que no primeiro turno havia ficado em terceiro lugar.
De acordo com o resultado oficial do pleito, divulgado pelo Ministério do Interior, Battle recebeu 1.138.067 votos, ou 51,59%, enquanto seu rival esquerdista, Tabaré Vázquez, da Frente Ampla, obteve 972.197 votos, ou 44,07%. A votação terminou às 19h30 (20h30 em Brasília).
A segunda rodada praticamente dividiu o Uruguai ao meio. Os que se juntaram a Batlle e os que preferiram Vázquez. Nas palavras do presidente Julio María Sanguinetti, "são as famílias ideológicas que convivem no país: a liberal e a socialista".
Foi a primeira vez que o Uruguai teve segundo turno para presidente. No primeiro, em 31 de outubro, Vázquez obteve 39,06% dos votos e Batlle, 31,96%. Em terceiro, com 21,5%, ficou o ex- presidente Lacalle. Segundo Agustín Canzani, da empresa de pesquisas Equipos-Mori, a participação eleitoral foi igual à da primeira rodada, quando 92% dos 2,4 milhões de eleitores foram às urnas.
José Luis Batlle, primo do presidente eleito, disse que em março se instalará no Uruguai um governo de coalizão colorado- nacionalista, embora o presidente vá tentar também acordos com outros grupos representados no Congresso.
Para a deputada colorada Milka Barbato venceram a democracia e a tolerância. "Estas eleições foram um plebiscito onde o povo teve de escolher entre dois modelos", disse ela. O homem de confiança do atual presidente, o deputado Washington Abdala, acredita que o resultado foi fruto "da grande gestão do atual governo".
Controvertido mesmo dentro do seu partido, com uma trajetória que inclui críticas a Sanguinetti, o liberal Batlle propõe uma economia aberta e manutenção da atual disciplina fiscal. Muitas de suas propostas foram consideradas ridículas ou exageradas por seus adversários eleitorais. Contudo, assessores e simpatizantes argumentam que Batlle está à frente do seu tempo.
O novo presidente propôs, em campanha eleitoral, por exemplo, que o Uruguai negocie um acordo de livre comércio diretamente com o Nafta (Estados Unidos, Canadá e México). Ele acha que essa medida ajudaria a impulsionar o Acordo de Livre Comércio das Américas (Alca). Batlle defende também que o Mercosul passe por uma "pausa", segundo palavras do senador Alejandro Atchugarry, próximo ao presidente eleito. O senador disse que, para Batlle, "enquanto Brasil e Argentina não entrem em um acordo, o Uruguai devia flexibilizar seus compromissos de tarifa externa com o bloco".
Dentre as muitas idéias consideradas por seus adversários como "ridículas", está a de vender o ouro das reservas do Banco Central, atrair cientistas russos para desenvolver tecnologia no país, criar cavalos de corrida para exportar ou se aliar à Argentina e Paraguai para enfrentar o Brasil dentro do Mercosul. Ele propõe ainda uma lei de responsabilidade fiscal, que limita o gasto e o endividamento.
Outra das idéias de Batlle é estimular que as empresas do Estado impulsionem uma grande política de obras públicas e contribuam para melhorar a educação. Talentoso, tolerante, pronto para governar e alguém que sabe de economia. Estes são os adjetivos usados pelo ex- vice-presidente Gonzalo Aguirre, do Partido Nacional. "Durante a ditadura ele deu a cara para bater, sem medir riscos", disse Aguirre, referindo-se aos anos de exceção, de 1973 a 1985.
Batlle, advogado que jamais exerceu a profissão, é casado pela segunda vez com Mercedes Menafra e tem dois filhos. Sua biblioteca é composta por 6.500 volumes. A família Batlle atua na direção do Partido Colorado desde 1870. Afastado da política pelos militares, como quase todos os políticos da época, durante esse período o novo presidente dedicou-se à empresas agropecuárias.
Ele entrou em 1958 na Câmara dos Deputados e em 85, com a saída dos generais do poder, conseguiu uma vaga no Senado, onde permaneceu até 1994. Seu adversário de domingo, Tabaré Vázquez, começou na política somente em 1989, quando ganhou as eleições para prefeito de Montevidéu.
Batlle exerceu o jornalismo em um jornal chamado Acción, fundado por seu pai, Luis Batlle Berres, e no qual trabalharam destacados dirigentes colorados, entre os quais Sanguinetti. Dono de uma emissora de rádio na década de 60, apresentou um programa de jazz, uma de suas paixões.
Na noite de domingo, Tabaré Vázquez reconheceu a derrota e manifestou disposição de dialogar com o novo governo. Ele ligou para seu adversário e felicitou-o pela vitóia. "Disse a Batlle que ele será o próximo presidente de todos os uruguaios", declarou Vázquez. E mais: "Seu governo nos encontrará dispostos a dialogar em benefício de todo o povo, prontos a trocar opiniões e a melhorar a qualidade de vida de todos os uruguaios, qualquer que seja a posição em que estejamos".

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