Seattle, 29 (AE) - Os delegados dos 135 países e grupos de países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) concordam em dois pontos: o primeiro é que, dadas as posições irreconciliáveis que os separam e já levaram ao fracasso das negociações preparatórias à reunião ministerial de Seattle, que se instala amanhã, será necessário algo próximo a uma intervenção divina para que se produza um acordo sobre a agenda de uma nova rodada de liberalização do comércio global até sexta-feira, o último dia do encontro. O embaixador José Alfredo Graça Lima, o principal negociador brasileiro, usou a palavra "milagre", ontem, para descrever a situação. O outro ponto de consenso é que o milagre terá de ocorrer, pois não é do interesse de nenhum dos participantes que a reunião fracasse e a OMC fique desacreditada, pois isso abriria o caminho para uma fortalecimento do protecionismo, já evidente nos países industrializados.
Como? Uma teoria em voga entre as delegações é a de que, prevendo que os vários impasses provavelmente persistirão até o fim, o governo dos Estados Unidos utilizará sua considerável competência na área do marketing político para transformar os modestos resultados possíveis em Seattle num êxito mais de relações públicas do que de novos compromissos substantivos com a liberalização. A formação de grupos abertos de países para discutir as questões pendentes mais difíceis e a escolha dos países para comandá-los reforçou as desconfianças.
Cingapura, por exemplo, uma cidade-estado que não tem sequer uma horta, cuidará das negociações sobre agricultura. Lesoto ficará com a questão do acesso aos mercados, ou seja, a redução de tarifas sobre bens industriais e serviços. Hong Kong tentará obter progressos na área de aplicação e regras. O Brasil foi convidado para presidir, com a Suécia, um grupo encarregado de discutir investimentos, políticas de competição, meio ambiente e outros temas novos. Até hoje, a delegação não havia respondido, alegando que o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, não havia chegado. Mas o governo não vê a tarefa com entusiasmo e desconfia que a missão possa ser uma maneira de tirar Lampreia e o País da negociação política mais importante sobre a agenda possível da rodada, que estará ocorrendo paralelamente, sob o comando da ministra do Comércio dos EUA, Charlene Barshefsky, que presidirá a reunião.
"Não se supreenda com anúncios diários de progressos ou acordos sobre algumas poucas questões que não são centrais para o lançamento para a rodada de negociações, mas sobre as quais há acordo", disse um funcionário internacional. Um exemplo é a prorrogação por mais dois anos da moratória de tarifas sobre o comércio eletrônico. Outra, é a concessão de isenção tarifária para a maioria das exportações dos 48 países mais pobres, com a provável exceção de têxteis, pela Europa, EUA e Japão. Há também convergências entre os países membros da OMC sobre a necessidade de dar maior transparência às compras governamentais.
Paralelamente, a Casa Branca já deu claros sinais de que usará as manifestações dos sindicatos e das organizações não-governamentais (ONGs) em favor da inclusão de padrões trabalhistas e ambientais nas regras do comércio internacional, para sustentar suas posições nas negociações a portas fechadas. Para Bradley Scharf, professor de Ciência Política da Universidade de Seattle, os protestos oferecem "uma bela oportunidade para o presidente Bill Clinton", que falará na quarta-feira aos 5 mil delegados. "Ele pode fazer um discurso no qual trombeteia as maravilhas do comércio global, em seguida repete cada uma das queixas que estão sendo feitas nas ruas e dizer, em seguida, que ele comparte das preocupações de cada um dos grupos dissidentes que estarão se manifestando." Frank Greer, assessor político de Clinton, disse que o presidente "vê os protestos como parte de uma dinâmica saudável" e "concorda com muitas das vozes".
Obviamente, essa estratégia não basta para obter um acordo final sob a forma de uma declaração dos ministros, que permita aos anfitriões fazer o anúncio do lançamento da rodada e apresentá-lo como um triunfo para o livre comércio. Havendo ou não acordo entre os governos sobre as questões mais difíceis, como a redução gradual de subsídios agrícolas, com vistas à sua eliminação, que a UE não aceita, ou a inclusão de uma discussão sobre cláusulas sociais, que os países em desenvolvimento rejeitam, não há dúvida entre as delegações de que, na undécima hora, esse documento surgirá, até porque nenhuma delegação quer ou pode assumir o ônus político do fracasso da reunião. Como? A teoria é que Barshefsky, já tem pronto, em quatro páginas, os termos do acordo que seria palatável para os EUA , a UE e o Japão, os três principais atores do encontro de Seattle por causa do enorme peso que têm no comércio mundial.
Graça Lima acha que esse cenário não é realista. "Há jogo bruto sim, mas não desse tipo", disse. "Já passamos da fase em que as decisões eram tomadas sem transparência." Ele não descarta, porém, a hipótese de um cenário parecido, mas lembra que o acerto terá de ser feito de uma maneira aceitável para os outros 133 membros e "sem empurrar nada guela abaixo".

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