Paris, 26 (AE) - O fato de uma cabeça rolar ou não pode abrir ou fechar as portas da União Européia para Turquia. Essa cabeça é a do chefe dos curdos, Abdullah Ocalan, que foi preso há um ano e meio, julgado e condenado à morte. Aparentemente uma coisa boa para a Turquia: o líder histórico e carismático da terrível revolta dos curdos da Turquia, que já dura 21 anos e é responsável por pelo menos 30 mil mortos, desapareceria e a guerra chegaria ao fim.
Ora, estranhamente o primeiro-ministro turco, Bulent Ecevit, hesita.
Essa hesitação tem dois motivos: Ecevit é pessoalmente contra a pena de morte. Mas a verdadeira razão é outra: é que dentro de 3 semanas, em 10 de dezembro, será realizado um Conselho Europeu em Helsinque. Na ordem do dia dessa reunião: os "quinze" devem aceitar a entrada da Turquia na UE?
A Turquia já havia apresentado há dois anos sua candidatura, juntamente com dez países da Europa Central e a Ilha de Chipre. Somente a Turquia foi recusada, pois a Grécia, que já pertence à UE, é inimiga visceral da Turquia.
Mas desde essa época, a situação mudou: quando um tremor de terra devastou e massacrou a Turquia, os gregos enviaram para lá auxílios, bombeiros, equipes de resgate. Desde então as relações entre os dois "irmãos inimigos" se tornaram mais amigáveis, como se para enfrentar a fúria da natureza, a violência dos homens se envergonha-se um pouco de si mesma.
Consequentemente, essa relativa melhora das relações entre Atenas e Ancara deixava presumir que este ano, em Helsinque, a candidatura da Turquia poderia ser finalmente aceita. E é nesse momento que as coisas dão para trás, por causa do chefe dos curdos, Ocalan, que um tribunal condena à morte.
De fato, a União Européia, se não pode fazer nada contra as violações dos direitos humanos cometidas pela China ou pelo Zaire, exige que eles sejam rigorosamente respeitados pelos membros da União. A regra é drástica. Javier Solana, responsável pelos assuntos internacionais, disse textualmente: "Será muito difícil, se não impossível, que a Turquia faça parte da família européia se mantiver a pena de morte".
O jogo é portanto claro: o acesso será negado se Ocalan for executado. A entrada na UE constitui de fato, há muitos anos, a espinha dorsal e o maior desejo da política turca. Até agora, esse objetivo estava fora de alcance, por causa do ódio milenar que separa a Grécia, membro da UE., e a Turquia. Ora, por uma infelicidade irônica, no momento em que o "impedimento" grego parece superado, eis que a cabeça do curdo Ocalan, o homem que os turcos mais detestam sobre a face da terra, ergue um novo obstáculo à realização desse projeto.
Compreende-se que nessas condições o primeiro-ministro hesite: anos de diplomacia perdidos porque uma cabeça vai ser decepada.
E o que perturba um pouco mais esse jogo é que o famoso Ocalan, feroz adversário dos turcos, coberto de sangue, mas também porta-bandeira das revoltas da minoria curda injustamente oprimida, começou a apresentar um discurso totalmente novo desde que foi preso: concita os curdos, seus antigos soldados, seus antigos terroristas à razão, à moderação, e pede-lhes que abandonem a luta armada, que sejam bons democratas e pacíficos cidadãos.
Surpreendente reviravolta: será que Ocalan foi "transformado" pelos carcereiros turcos? Será que está com medo da morte (mas seu passado mostrava, pelo contrário, uma grande coragem) ou então deu-se conta de que 21 anos de luta não trouxeram nada ao povo curdo, além de mortes e sofrimentos, e que é tempo de buscar outros caminhos?





