PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de novembro de 1999
Por Vladimir Goitia (assinatura obrigatória) 
São Paulo, 26 (AE) - O mundo "fashion" foi abalado esta semana com a veiculação de um documentário da BBC de Londres que mostra a outra cara dos grandes desfiles de moda e das badalações em festas com os rostos mais bonitos do planeta. Durante um ano, dois jornalistas da BBC conseguiram se infiltrar na agência Elite, de John Casablancas, e filmaram com uma câmera escondida como as adolescentes candidatas a modelo e as "top models" são assediadas por um bando de homens sedentos de sexo em discotecas, boates e apartamentos, onde as drogas e a prostituição correm mais do que soltas.
O correspondente em Roma do jornal argentino "Clarín" descreve em grande reportagem publicada quinta-feira que o lado "escuro" das passarelas, filmado pelo jornalista Donal Mac Intyre, que se fez passar por fotógrafo de moda, acabou detonando um dos maiores escândalos do mundo da moda em Milão. Mac Intyre, ajudado por uma belíssima jornalista de 31 anos, cujos interlocutores acreditavam tratar-se de uma modelo em busca da fama e ansiosa pelo trabalho, conseguiu documentar o prestigioso mundo da moda de Milão.
O vídeo, segundo relato do correspondente do "Clarín", mostra adolescentes entre 13 e 14 anos vestidas com trajes de festa e circulando com bebidas na mão entre grande número de homens e cenas de pessoas preparando cocaína para ser consumida. "Milão é um lugar perigoso", diz a modelo inglesa Rebecca Howard, em depoimento aos jornalistas. Ela sustenta que tinha 17 anos quando entrou pela primeira vez na filial da agência Elite em Milão.
Na reportagem, a BBC indaga se os chamados "PR" (agentes de relações públicas) e os "drivers" (choferes dos luxuosos automóveis das agências que levam as modelos de um lugar para outro) não seriam os responsáveis pela segurança e proteção das jovens modelos. "Eles levam a gente às boates e às discotecas, onde você recebe de graça o que quiser, incluído drogas", explica Rebecca à BBC.
Para filmar as cenas nas boates e discotecas, o jornalista da BBC se aproximou de um desses PR e fez amizade com Diego Fuga, da agência Elite. Aos poucos, Fuga acabou rompendo com o código de "omertá" (silêncio) que faz parte do mundo onde transitam os personagens da moda.
"Em vez de cuidar e proteger as adolescentes, muitas delas com idade entre 13 e 14 anos, eles as levam às boates, as seduzem e tratam ainda de colocar um preço para que saiam com grandes executivos e homens de negócios, que se sentem lisonjeados depois de um ligeiro sorriso ensaiado por uma dessas jovens nas luxuosas noites de Milão", diz Mac Intyre, no documentário da BBC. Sem saber que está sendo filmado, Diego Fuga explica que "quanto mais mulheres ele tem, mais dinheiro ele ganha".
O jornalista conseguiu gravar ainda o depoimento de um dos "drivers" da Elite. Daniel Blanco, sentado em um poltrona, sem camisa e orgulhoso de mostrar as suas tatuagens, afirma que, em dez anos de carreira como acompanhante das modelos, foi para cama com 325 candidatas ao mundo da moda.
Diante desse escândalo, quatro executivos da agência de John Casablancas, que entre as suas "top models" estão Noami Campbell, Cindy Crawford e Linda Evangelista, pediram demissão ou desligamento da empresa até que a "tormenta" desapareça.
Entre os executivos do alto escalão da Elite está o francês Gérald Marie, ex-marido de Linda Evangelista, que foi filmado enquanto oferecia, aos gritos, um milhão de liras (cerca de US$ 530) à bela repórter da BBC para levá-la à cama. Ante a resposta negativa, Marie grita: "você é fria, você é fria". Marie foi acusado ainda de ter tentado manter relações com uma garota de 15 anos em Nice, na França, onde se realizava o concurso "Elite Model Look" para modelos estilo lolita.
De acordo com o "Clarín", a agência elite tentou proibir a veiculação do documentário por meio de suas subsidiárias na França e nos Estados Unidos. Mas esta semana a agência decidiu pedir "desculpas incondicionais" pelo "desastroso" comportamento de alguns de seus executivos. John Casablancas, dono da Elite, pediu desculpas pela "conduta" de seus funcionários e prometeu investigar a fundo as cenas "chocantes" em que aparecem modelos da Elite.
Donal Mac Intyre mostrou o documentário ao governo britânico, que também anunciou uma investigação profunda do caso. A BBC diz que é provável que ocorra o mesma com a polícia e a Justiça italianas, já que muitas das jovens envolvidas no documentário são menores de idade.


