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sexta-feira, 26 de novembro de 1999
Por Viviane Mottin 
São Paulo, 26 (AE) - Se tem alguém do meio petroquímico brasileiro que o conhece até melhor do que a palma da própria mão é Percy Louzada de Abreu, ex-presidente da Petrobras Química (Petroquisa). Agora, vendo de fora a estatal que presidiu durante os últimos cinco anos, e deixou em abril passado, ele fala mais à vontade sobre a Petroquisa e o setor petroquímico nacional. Se ela deve ser varrida do mapa petroquímico brasileiro? "Foi proposta a privatização da Petroquisa como holding, e aí nasceria a grande empresa nacional", recorda Abreu, que inclusive defendia essa idéia.
Hoje, embora tenha havido intenção de venda do controle da Petroquisa, aos pedaços - na segunda geração -, a estatal só não foi passada adiante por falta de compradores. Nas centrais, onde a Petroquisa mantém participações - e revê suas posições, por causa da reestruturação do setor, podendo vendê-las -, a situação é conflitante. Por dois motivos: a estatal tem sócios diferentes em cada um dos três pólos brasileiros; e sua holding, a Petrobras, parte para vôos independentes da controlada, e com outras companhias - pólos de Paulínia e do Rio de Janeiro. "Não é ético ter participação em todas as áreas concorrentes entre si", avalia o ex-presidente.
Nesse caso, engana-se quem pensa que a Petrobras deveria deixar a área petroquímica. No mundo, não há petrolífera que prescinda de um desses três segmentos de atuação: prospecção de petróleo, produção e comercialização de derivados, e petroquímica. "E não há uma área melhor do que a outra. É uma questão de equilibrar riscos a longo prazo", afirma o especialista.
Para mostrar o tamanho da indústria petroquímica nacional - essa mesma que não pode seguir despedaçada -, ele compara. "O faturamento bruto da Petrobras é de US$ 25 bilhões; o da Texaco, de US$ 45 bilhões; e o da Shell de US$ 170 bilhões." O faturamento da Basf é o dobro do da Petrobras e o resultado líquido do Pólo de Camaçari é de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões, arremata.
Esses números evidenciam outra realidade peculiar do Brasil. A grande empresa petroquímica nacional, como quer o governo com a proposta de reestruturação do setor, não pode depender de financiamentos do BNDES. Por melhor que pareçam, as taxas de juros do banco (cerca de 20% ao ano) são estratosféricas se compradas as que as gigantes da petroquímica mundial conseguem no exterior - isso se não bancarem a compra sem pedir um cent de dólar de crédito. Lá fora, a taxa é quatro vezes menor ou até menos do que isso.
"A compra do controle da Petroquisa em algumas indústrias de segunda geração, feita por petroquímicas brasileiras, foram quase todas financiadas pelo BNDES, e o resultado são empresas altamente endividadas", explica Abreu. Apesar disso, ele desaconselha parcerias entre empresas nacionais e as estrangeiras reconhecidamente hegemônicas. O ideal é que se unam a indústrias de porte, multinacionais, mas que não sejam centralizadoras. A francesa Elf Aquitaine e a belga Petrofina (ambas sob o controle da holding francesaTottal) seriam bons parceiros, porque necessitam maior expansão na área petroquímica.
E o que o Brasil teria a oferecer? "Um grande potencial de mercado", responde ele. Outros quesitos como capacidade gerencial, matérias-primas, tecnologia e capital são incipientes
até discutíveis. E, voltando à importância da presença da Petrobras no setor, ele insiste: é questão de vida ou morte, pois é ela quem garante a matéria-prima. E deverá continuar garantindo, ainda por um bom tempo.
Abreu prevê que, mesmo o mercado se abrindo às importações diretas de nafta - em agosto do próximo ano-, a Petrobras sempre oferecerá o produto ao mercado interno a preços melhores do que no exterior. A inexistência de infra-estrutura de transporte para trazer a nafta ao Brasil - só a Petrobras a possui - é um fato que comprova a tese do ex-presidente, que trocou o Rio de Janeiro por Porto Alegre (RS), e se dedica à promoção do uso do gás natural.


