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sexta-feira, 26 de novembro de 1999
Por Ariel Palacios, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 26 (AE) - "Muitos problemas são resolvidos quando você está contra a parede, nos últimos minutos. Este pode ser o caso do regime automotivo". Com esta declaração, o chanceler argentino, Guido Di Tella, afirmou à imprensa estrangeira em Buenos Aires que existe uma possibilidade de que o regime automotivo entre o Brasil e a Argentina seja resolvido em cima da hora, próximo ao limite estabelecido, no dia 31 de dezembro. "O acordo automotivo é fundamental", disse o chanceler, que lamentou que não possuía boas notícias das reuniões realizadas em Montevidéu para se chegar a um acordo.
Referindo-se às recentes crises comerciais entre o Brasil e a Argentina, Di Tella, que é conhecido pelas suas opiniões diretas
sem sutilezas, sustentou que a desvalorização do real "havia sido determinante" para seus surgimentos. "Houve uma deterioração na relação entre os dois países pela queda do real", afirmou o chanceler, que disse que não criticava a desvalorização, "pois segundo o governo brasileiro, não houve alternativa".
O chanceler afirmou que as relações "se recompuseram há pouco. Há 3 meses as relações estavam mal, e hoje diria que estão somente complicadas. Mas não é uma tragédia. O Brasil, para a Argentina, é um aliado estratégico. O Mercosul é fundamental". E acrescentou com ironia: "eu até diria que o Mercosul é mais fundamental para nós do que para os brasileiros".
A crise Brasil-Argentina, para Di Tella, "não é uma questão estrutural do Mercosul. Estão alterados os fluxos de comércio, e há setores que estão de mau humor. São lobbies que pressionam. O Canadá e EUA não fazem drama com seus problemas de intercâmbio comercial. Nós é que estamos desacostumados ao desacordo", disse, embora tenha admitido que "os pequenos problemas como calçados e frangos, juntos, fazem um problema significativo". De acordo com Di Tella, o Brasil e a Argentina precisam "fazer horas extras para resolver os problemas do Mercosul".
Di Tella sustentou que o Mercosul "é uma grande idéia", e considerou que o bloco comercial "tem a marca" do ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo, "que queria tudo rápido". Segundo Di Tella, "Cavallo tinha uma visão super-otimista e imprimiu um grande automatismo ao Mercosul, que foi pesado para alguns países".
O chanceler afirmou que a Argentina está aberta a novas incorporações no Mercosul: "neste momento estamos digerindo os casos do Chile e da Bolívia. Mas também não é o caso de colocar um país por mês dentro do bloco comercial. Precisamos antes, aprofundá-lo".
Nas discussões sobre a criação de uma moeda única para o Mercosul "houve um avanço extraordinário", disse Di Tella, que recordou com um sorriso sarcástico como há dois anos, quando o presidente Menem falou sobre o tema pela primeira vez, "veio uma missão do Brasil, encabeçada pelo ministro Pedro Malan, para que não falássemos do tema". Segundo o chanceler, "na época a moeda única foi encarada no Brasil como uma tentativa de desvalorização encoberta, mas hoje nosso vizinho a vê como uma coisa desejável".
Di Tella, que após sua saída do governo se dedicará por alguns meses a dar aulas em Oxford, afirmou que a reunião da OMC em Seattle, "tem grandes chances de terminar sem conclusão alguma", já que se trata de um encontro "sem agenda alguma".
No café da manhã com os correspondentes estrangeiros, Di Tella lamentou a falta de sanduíches, mas contentou-se com croissants.
Fazendo um balanço de dez anos de governo Menem, disse que a Argentina estava "fantasticamente bem", que o país estava entre os 20 principais do mundo e que já havia passado "aquela época onde queríamos ser Terceiro Mundo. O que íamos fazer junto com países indigentes? É simpático, mas...".


