São Paulo, 25 (AE) - Intrigas, negociatas, manipulações e até tentativas de suborno. Todos os ingredientes de um romance policial dos anos 50 fazem parte de uma outra história mais recente e verdadeira: o comportamento da imprensa brasileira antes e durante o governo Collor (1990-1992). Pelo menos é o que revela a leitura do livro Notícias do Planalto (Companhia das Letras, 719 páginas, R$ 35,00), do jornalista Mário Sérgio Conti
lançado quarta-feira em São Paulo.
Entre as revelações do livro estão os bastidores da edição, na TV Globo, do famoso debate entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva na campanha de 1989; o negócio que PC Farias chegou a fechar para a compra do Jornal do Brasil; e uma conversa na qual um jornalista tenta subornar um diretor de redação para a publicação de uma reportagem.
Ex-diretor da revista Veja (1991-1997), Conti escreve com conhecimento de causa. Afinal, esteve no olho do furacão que resultou no afastamento de Collor, ganhando em 1992 o Prêmio Editor do Ano da World Press Review pela cobertura do impeachment. Após sair da revista, fez 141 entrevistas e várias pesquisas, entre maio de 1998 e setembro de 1999.
Com o sub-título "A Imprensa e Fernando Collor", o livro tenta fazer uma análise do relacionamento entre os meios de comunicação e o poder desde o aparecimento do fenômeno Collor, em 1987, até sua saída do Planalto. É o caso clássico do debate entre Collor e Lula, nas vésperas da decisão do segundo turno. Ainda hoje, muitos atribuem a vitória de Collor à edição do debate apresentada pelo Jornal Nacional no dia seguinte.
No livro, Conti diz que nem o dono da Globo, Roberto Marinho, nem seus filhos ordenaram que Collor tivesse mais tempo que Lula na edição final. O candidato do PT ficou com 2min22 contra 3min34 do adversário. "Roberto Marinho mandou que se refizesse a compactação para evidenciar que Collor vencera", escreve o autor. "Mas não revogara a decisão de que os candidatos deveriam ter o mesmo tempo de exposição nos telejornais da rede."
Para Conti, "a responsabilidade pela edição foi de Alberico Souza Cruz e Ronald Carvalho". Alberico era diretor dos telejornais e Ronald era editor de Política. "Se isso está escrito, ele mentiu", afirmou Alberico. Hoje diretor de telejornalismo da Rede TV, Alberico foi lacônico, mas negou a versão do livro. "A responsabilidade não era minha", resumiu.
Apesar de o episódio causar polêmica até hoje, o que provoca mais impacto no livro são as confidências sobre algumas personagens conhecidas no meio jornalístico. O autor relata uma visita, em 1989, do jornalista Mário Alberto de Almeida, que estava no setor privado, ao então diretor de redação do jornal O Estado de S.Paulo, Augusto Nunes. Hoje, Almeida é diretor do jornal Gazeta Mercantil e Nunes é diretor da revista Época.
Na conversa, segundo o livro, Almeida teria oferecido US$ 250 mil para Nunes publicar matérias elogiosas sobre alguns políticos. A primeira seria sobre o então ministro da Agricultura, Íris Rezende, que estava disputando a candidatura do PMDB à Presidência da República. A reportagem teria de ser feita por Augusto e com o seguinte título: "O ministro das boas notícias".
Almeida era sócio de Luiz Gonzaga de Barros Mascarenhas, empresário goiano e conhecido de Íris. Na conversa, Almeida teria dito a Nunes que ele precisava melhorar de vida e pensar no futuro de suas filhas. Nunes teria recusado, mas Almeida seguiu telefonando até que um bilhete do diretor do Estado encerrou o assunto: "Coloque na conta da minha (de) formação interiorana, mas não sei lidar com corrupção."
O diretor da Gazeta admitiu que falou com vários jornalistas sobre Íris, mas negou qualquer oferta de dinheiro. "Estou no jornalismo há 30 anos e sei qual é a regra", respondeu Almeida. "Falei do Íris para muita gente, mas jamais brandi dinheiro ou sugeri qualquer título de reportagem."
Ele confirma que falou sobre a situação financeira de Nunes
mas não da forma como está no livro. "Disse sim que ele precisava melhorar de vida, como a maioria de nós precisa, e se conversei sobre suas filhas é porque conhecia a família dele", explicou Almeida. Ele disse não imaginar a origem da história, mas anunciou que entrará na Justiça. "Vou responsabilizar judicialmente a quem de direito."
O ex-ministro e atual senador Íris Rezende (PMDB-GO) também duvida. "Não tem o menor cabimento", respondeu o senador. "Conheço o Mário Alberto, mas nunca soube do episódio e duvido que ele tenha feito essa proposta", acrescentou. "Não tinhamos nem dinheiro e nem qualquer motivo para isso, porque a briga no PMDB era interna e não adiantaria aparecer em matérias na grande imprensa."
Também citado no episódio, José Paulo Kupfer, então editor-executivo de O Estado de S.Paulo, lamentou que não tivesse sido ouvido pelo autor. "Fui citado como autor de uma ação, mas não fui procurado para confirmá-la ou negá-la, diz Kupfer, que hoje trabalha na Gazeta Mercantil. No livro, Kupfer aparece como reponsável pela propagação da história. "Não passei nada adiante", respondeu Kupfer. "Não presenciei o fato e nem ouvi a história inteira do Augusto." Para ele, "é tão difícil crer que o Augusto tenha inventado a história quanto imaginar que o Mário seja capaz de uma coisa dessas".
Augusto Nunes, porém, confirma a tentativa de suborno . "É tudo verdade", sublinha ele. "Fiquei chocado e perplexo, porque o Mário tinha sido meu chefe na Veja", lembra. "O fato é que recebi uma proposta para fazer uma matéria", ressalta. "E essa história não comporta mais de uma versão." Nunes só não sabe dizer qual seria a conexão entre Almeida e o ministro Íris. "Isso eu gostaria muito de saber."
No livro, Conti cita que a Veja publicou duas matérias elogiosas sobre Íris. Segundo Conti, Almeida também era amigo do então diretor de Veja, José Roberto Guzzo, e o procurou para elogiar Íris. "Pelo que está no livro, parece que a Veja aceitou entrar nessa", comenta Nunes. O autor, porém, não chega a afirmar que a revista tenha entrado no suposto esquema. Guzzo, hoje diretor da revista Exame, não quis fazer nenhum comentário.
Em outro trecho do livro, Almeida aparece tentando convencer o então diretor da revista IstoÉ, Mino Carta, a não publicar uma capa sobre PC Farias. "Essa capa vai abalar o governo", teria argumentado Almeida. "Essa sua conversa é inútil, imprópria e até ofensiva", devolveu Mino. Outra vez, Almeida refuta o teor do livro. "Alguém do governo me telefonou e eu fui lá perguntar ao Mino qual era a capa", conta Almeida. "Ele me disse qual era, agradeci, saí e depois falei para o Mascarenhas: vai sair a matéria." Mino foi procurado pela reportagem, mas não retornou as ligações.
O mesmo PC Farias é personagem principal de outra história do livro, que relata as negociações do empresário para comprar o Jornal do Brasil. Segundo Conti, PC chegou a acertar tudo com o diretor-presidente do JB, Nascimento Brito. Pagaria US$ 120 milhões pelo jornal. Nascimento concordou, mas condicionou o acerto final à assinatura de sua mulher, Leda Marina, que era a dona do jornal. "Topo. Fazemos o contrato, eu assino e depois pegamos a assinatura da Leda", teria respondido o dono do JB.
O negócio não saiu, porque Leda Marina vetou. Algumas pessoas mais próximas de Nascimento Brito acham possível que tenha havido alguma negociação, mas consideram inverossímil o diálogo citado. "O dr. Nascimento jamais usa gíria e nem teria essa conversa informal com o PC", observou um amigo que preferiu não se identificar.
Apesar de todas as revelações, pelo menos dois pontos vão colocar o autor sob olhares inquisidores: ele pouco toca na questão das operações financeiras que sustentaram o "collorismo" e parece encampar a tese de que Suzana Marcolino era uma suicida compulsiva, que matou PC e depois tirou a própria vida.
"Não é verdade que eu concluo pelo suicídio, mas é uma hipótese forte, que todo mundo esqueceu", diz Conti. "Eu dou os elementos que retomam a hipótese inicial: Suzana tinha motivo
comprou uma arma e estava bêbada." Mas Conti também parecia já ter tomado sua posição sobre essa questão. Foi sob sua gestão, que a Veja tratou de "enterrar" o caso PC Farias, com a capa "Caso Encerrado", em junho de 1996.
Conti também diz não poder responder a uma das principais acusações que pesam sobre o ex-presidente. Afinal, Collor é ou não é ladrão? "Há elementos para dizer que ele cometeu crime de responsabilidade", afirma o autor. "Mas não há elementos que o incriminem em delito de natureza civil."





