Brasília, 25 (AE) - Integrantes da CPI do Narcotráfico avaliam que o legista da Universidade de Campinas (Unicamp) Fortunato Badan Palhares complicou-se hoje ao depor na CPI do Narcotráfico sobre a suspeita de que produziu laudos periciais beneficiando integrantes do crime organizado. Badan - que disse ter cometido enganos em dois laudos, sem dizer no entanto em quais - revelou que fez um laudo sobre a morte do ex-deputado e ex-vice-governador da Paraíba Raimundo Asfora, ocorrida em 1987, sabendo que a arma do crime foi deslocada de sua posição inicial após a morte. Ele reconheceu ainda que não realizou um dos testes, o exame para a verificação do ponto de impacto da bala disparada contra a vítima.
O legista, autor do laudo da morte de Paulo César Farias e de Suzana Marcolino defendendo a tese de crime passional, lamentou o fato de não ter incluído em seu trabalho a informação sobre a altura de Suzana Marcolino, que era namorada do ex-tesoureiro de Fernando Collor. Segundo investigações da polícia, Suzana teria um altura dez centímetros superior à considerada pelo legista da Unicamp. O dado influenciou a conclusão de Badan de que Suzana matou PC e depois suicidou-se. O trabalho, no entanto, é contestado pela polícia alagoana, que, na semana passada, indiciou nove pessoas, entre elas um dos irmãos de PC, o deputado Augusto Farias (PPB-AL), sob a acusação de homicídio.
Badan não admitiu falhas no caso PC. "Meu laudo só não será correto se aparecerem fatos novos." Em relação à morte do vice-governador, Badan concluiu que Asfora se suicidou, o que é contestado pelo perito criminalista Domingos Tochetto, que foi submetido a uma acareação com o legista. A tese de suicídio confronta-se com a suspeita de que Asfora foi morto por motivação política. O legista reconheceu que não foi realizado um exame de DNA para se tirar dúvidas sobre a identificação de um corpo que seria do jovem José Antônio Penha Brito Júnior, desaparecido em 1988, no Maranhão.
O menino, filho de um ex-gerente do Banco do Brasil, teria sido assassinado pelo ex-deputado José Gerardo Abreu, que perdeu o mandato por causa dos indícios de envolvimento com uma quadrilha de roubo de carga e tráfico de drogas denunciada pelo traficante Jorge Meres. Meres diz que Farias e o empresário Willian Sozza, de Campinas, tramaram a morte de PC. O grupo seria integrado ainda por Augusto Farias e pelo ex-deputado Hildebrando Pascoal, que teve seu mandato cassado depois de ter sido investigado pela CPI.
Os deputados não se convenceram com as explicações de Badan, que diz estar sendo vítima de "injúria" de colegas e profissionais adversários. O deputado Antônio Carlos Biscaia questionou o fato de o legista ter concluído que Asfora se suicidou considerando que a cena do crime foi modificada. O perito Tochetto, perito oficial do crime na Paraíba, considerou ser impossível o suicídio sendo que a arma foi usada com a mão direita, mas foi encontrada do lado esquerdo da vítima.
De acordo com o relator da CPI, Palhares deixou uma "dúvida terrível" nos parlamentares. "Só não há, agora, mais nenhuma dúvida sobre a necessidade de quebra do sigilo do legista", emendou. Segundo Torgan, Palhares não estaria conseguindo explicar o laudo de Júnior. "Foi um descuido lamentável ele não pedir um exame mais detalhado no caso do garoto", afirmou. "Não identificando o menino, ele pode ter beneficiado quem executou Brito Penha Júnior, e a suspeita da execução recai, hoje, sobre o ex-deputado José Gerardo", afirmou Torgan.
Palhares negou que soubesse, na época, de ligações entre José Gerardo e o pai do garoto e disse não conhecer o ex-deputado. Os deputados deixaram claro que não havia ainda indícios suficientes para um eventual indiciamento do legista. Palhares informou à CPI que não pediu o exame de DNA porque a família o garoto era pobre. Além disso, segundo ele, a Unicamp não tinha os equipamentos necessários para fazer o trabalho. "Falhas que beneficiam pessoas poderosas não são normais", afirmou o deputado Eber Silva (PDT-RJ). A CPI poderá pedir a exumação do garoto para tentar realizar o exame de DNA.
Paraíba - Sobre a arma encontrada próxima ao corpo do vice-governador da Paraíba, Palhares explicou que a desconsiderou pelo fato de ela ter sido retirada e novamente posta no local pelo instituto de criminalística. "A arma não foi considerada", afirmou Palhares. Segundo ele, "certamente no processo" constava a informação de que mexeram no local. O laudo do legista concluiu que os indícios apontavam para o suicídio. Embora Palhares negasse, alguns parlamentares disseram que o sangue no rosto do vice-governador "escorria para cima". "Não é verdade; isso é porque as fotos não foram tiradas no plano horizontal", justificou Palhares.
A sessão de hoje para colher o depoimento de Palhares prometia estender-se por várias horas. A sessão começou às 11h e até as 19h não havia terminado. Segundo o presidente da CPI, deputado Magno Malta (PTB-ES), havia pelo menos 10 laudos fornecidos por ele que seriam confrontados com os de outros profissionais. Badan Palhares passou por exames antes de entrar na sala de depoimentos. Foi assistido pelo deputado integrantes da comissão e médico, Paulo Baltazar (PSB-RJ).
A CPI deverá ir a Alagoas antes do recesso parlamentar, que começa no dia 15. Lá poderá ser providenciada acareação entre Badan Palhares e outros legistas e até com o deputado Augusto Farias (PPB-AL). "O deputado só faz se quiser, mas podemos pedir seu apoio", disse Malta.

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