Rio, 25 (AE) - O jogo do bicho é o único crime efetivamente organizado no País, com ramificações em praticamente todos os Estados, entranhado nas principais instituições públicas e controlado com mão de ferro por poucos homens. A análise é do ex-chefe da Polícia Civil do Rio deputado estadual Hélio Luz (PT). "Para se ter uma idéia, pelo menos um terço dos deputados estaduais tiveram suas campanhas financiadas pelo bicho", afirmou. "O mesmo não acontece com o narcotráfico."
Na terça-feira, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico convocou alguns dos principais banqueiros do bicho do Rio para depor, em Brasília. Na avaliação de Luz, a prisão da cúpula da contravenção, em 1994, não abalou a estrutura do bicho
que continuou se expandindo na área do bingo e do videopôquer. "O jogo pode ter se tornado menos visível", disse. "Mas nunca deixou de crescer." Segundo ele, os bicheiros mantêm diversos negócios no exterior, como sociedades em cassinos e máquinas de jogo. "O bicho é mais estruturado e centralizado do que o narcotráfico", afirmou.
Luz acha difícil, no entanto, estabelecer a ligação entre os bicheiros e o tráfico de drogas, como pretende a CPI. "Essa relação nunca foi comprovada", disse. "Nunca se provou o envolvimento desses banqueiros convocados com o tráfico", acrescentou, referindo-se a Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães; Waldemir Garcia, o Miro; Waldomiro Paes Garcia, o Maninho; e Ivo Noal.
O advogado de Capitão Guimarães, Nelio Machado, lembrou que, na época, os banqueiros foram absolvidos da acusação de envolvimento com o narcotráfico. Ele não poupou críticas à CPI. "Parece mais um ato de exibição de que algo que tenha substância", afirmou. No meio policial, ficou a impressão de que os integrantes da CPI estão mal-informados. Os banqueiros mais frequentemente associados ao tráfico de drogas seriam Aniz Abraão David, o Anísio, e Luiz Pacheco Drummond, o Luisinho Drummond.
A dificuldade em provar a conexão entre os bicheiros e os traficantes ficou demonstrada no próprio processo que levou os grandes banqueiros à cadeia. Apesar da investigação detalhada feita pelo Ministério Público Estadual sobre as atividades do bicho, não se chegou a elementos que ligassem o jogo ao narcotráfico - e a juíza Denise Frossard acabou condenando os bicheiros apenas por formação de quadrilha. Na ocasião, o deputado federal Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ), autor do requerimento que convoca os bicheiros a depor na CPI, era o procurador-geral de Justiça do Estado.
A procuradora-chefe do Ministério Público Federal (MPF) do Rio, Maria Emília de Araújo, informou que não há, no momento, nenhum inquérito aberto no MPF para investigar o jogo do bicho e sua suposta ligação com o narcotráfico. "Não existe nenhum elemento concreto que comprove essa ligação", afirmou ela. "Na verdade, é uma hipótese, uma conjectura que a gente sempre levou em conta, pela persistência do deputado Antonio Carlos Biscaia nesse assunto". Nem o Ministério Público Estadual está investigando a conexão.
Para o governo do Estado, o foco das investigações sobre o narcotráfico no Estado não está no bicho, mas no esquema de lavagem de dinheiro. "Estamos levantando empresas e doleiros suspeitos de participarem desse esquema", disse o coordenador de Segurança, Luiz Eduardo Soares. "Nosso interesse é seguir o dinheiro e pode ser que, mais adiante, a gente chegue a uma mesma lavanderia utilizada pelo bicho e pelo tráfico".
O chefe de investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Rubens Paladini, também informou que não existe nenhuma investigação sobre a suposta conexão entre os bicheiros e o tráfico de drogas.

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