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quinta-feira, 25 de novembro de 1999
Por Vera Rosa e Wilson Tosta 
Belo Horizonte, 25 (AE) - Um acordo que vem sendo negociado entre o bloco majoritário do PT, o grupo do ex-prefeito de Porto Alegre Tarso Genro, considerado de centro, e setores da esquerda mais light, representada pela facção Democracia Socialista, poderá levar à construção de uma unidade política nunca antes vista no partido. A perspectiva desse acordo em temas considerados polêmicos, como política de alianças e forma de fazer oposição ao governo federal, marcou hoje o segundo dia do 2.º Congresso Nacional do PT e deixou os radicais preocupados.
A escolha da tese-guia - o calhamaço que vai nortear as diretrizes do PT para os próximos anos - estava prevista para hoje, mas até o início da noite a votação não havia terminado. Mesmo entre os xiitas, porém, não havia dúvida de que seria escolhida a tese da Articulação - o grupo moderado liderado por Luiz Inácio Lula da Silva e pelo presidente do PT, José Dirceu -
intitulada O Programa da Revolução Democrática. O texto defende reformas estruturais no capitalismo, como mudanças na política fiscal, e sustenta que o socialismo não é inevitável, mas uma "possibilidade histórica".
Seis pontos podem ser contemplados no acordo negociado entre os moderados e parte da esquerda petista, como forma de emendas ao Programa da Revolução Democrática. São eles: caráter das alianças eleitorais para 2000 e 2002, conveniência ou não de adotar a palavra de ordem "Fora FHC", posição sobre privatizações, renegociação da dívida externa e ruptura dos acordos com o FMI, candidatura à Presidência da República e eleição direta para cargos de direção no PT.
"A situação do País é muito grave e o maior partido de oposição, nesse momento, precisa ter grandeza política para apresentar propostas para o País", afirmou o deputado Aloízio Mercadante (SP), um moderado da Articulação. "O PT, pela sua responsabilidade histórica, precisa sair unido em torno de um projeto estratégico capaz de atuar nesse quadro de crise." O provável "acordão", como vem sendo chamado, não passa pela retirada de nenhuma candidatura à presidência do PT. No domingo, os moderados da Articulação e da Democracia Radical, corrente do líder do PT na Câmara, José Genoíno (SP), vão votar no atual presidente do partido, deputado José Dirceu, que deverá ser reeleito com maioria folgada. Os radicais, incluindo a Democracia Socialista - facção que tem os principais cargos no governo do Rio Grande do Sul -, apóiam o deputado Milton Temer (RJ). No centro, o Movimento PT, grupo de Tarso Genro, defende o nome do também deputado Arlindo Chinaglia (SP).
Para José Genoíno, o acordo não tem objetivo apenas numérico
embora possa abranger 70% dos votos no congresso petista em torno de projetos estratégicos. "Precisamos de um novo pacto de unidade política, porque um dos fatores que desgastam a imagem do PT é a quantidade de brigas." Dos seis itens em negociação, o que causará mais polêmica é o "Fora FHC". Os moderados concordam em adotar um discurso ainda mais duro de oposição ao governo, mas sem citar o slogan, que, na avaliação do bloco majoritário, dá margem a interpretações golpistas.
"Essa palavra de ordem põe o PT na defensiva", disse Genoíno. Agora, os moderados propõem o slogan "Derrotar FHC". "Isso parece birra de menino", provocou Milton Temer. "Não podemos trabalhar como linha auxiliar dos golpistas do governo que falam isso." É provável que haja consenso em relação à proposta de lançar um candidato do PT à Presidência da República somente depois das eleições do ano que vem. Outro ponto que deve passar pelo "acordão" diz respeito ao controle público de empresas estratégicas, como de energia elétrica, saneamento e telecomunicações. Esta sugestão,que na prática significa defender maior eficácia das agências reguladoras, é do Movimento PT. "Não se trata de reestatização", ressalvou Arlindo Chinaglia.


