São Paulo, 25 (AE) - Um protesto de perueiros por causa do assassinato de dois companheiros transformou hoje o Paço Municipal de Guarulhos em praça de guerra. Por mais de duas horas, após uma tensa reunião com o chefe de gabinete do prefeito Jovino Cândido (PV), José Winter, e o secretário de Governo, Ernesto Milagre, donos de lotações enfrentaram a Polícia Militar e a Guarda Municipal com paus e pedras.
O perueiro Marcelo Vieira de Melo, de 27 anos, e seu irmão, o cobrador Vanderlei Veira de Melo, de 21, foram mortos a tiros às 17 horas de quarta-feira, na altura do km 212,5 da Rodovia Presidente Dutra. Donos de lotação da cidade atribuíram o crime a policiais rodoviários federais e agentes de fiscalização da prefeitura.
Representantes da categoria foram hoje à prefeitura, no bairro Bom Clima, cercada por peruas desde a noite de quarta-feira, para negociar a concessão de ajuda à família dos colegas e o abrandamento da fiscalização. Mas, enquanto se discutia uma saída para o impasse, grupos de perueiros que estavam fora do prédio começaram a tentar invadir a sede da prefeitura.
Cerca de 400 donos e cobradores de lotação destruíram vidraças com pedras, tentaram agredir guardas-civis, depredaram um caminhão da prefeitura e, segundo Winter, ameaçaram com estiletes a secretária de Assuntos Jurídicos, Marlene Machado. Chamada, a Tropa de Choque disparou balas de borracha e jogou bombas de gás na direção dos manifestantes.
Incêndio - Os funcionários do gabinete e das secretarias de Planejamento e Assuntos Jurídicos foram dispensados. Uma sala do gabinete pegou fogo depois de ter suas vidraças quebradas por pedradas. A PM não soube explicar se o incêndio foi causado pelos perueiros. Um dos policiais que guardavam a entrada do gabinete chegou a dar três tiros para o alto para conter os manifestantes.
Depois que os ânimos se acalmaram, pelo menos dez peruas ficaram retidas no pátio da prefeitura. Revoltado, o chefe de gabinete anunciou o encerramento das negociações. "Não negociamos com bandidos que invadiram a prefeitura, destruíram documentos e ameaçaram a secretária, além de depredar o carro dela e o patrimônio público", afirmou Winter.
Segundo o presidente da Cooperativa de Transporte Autônomo de Guarulhos, Luiz Carlos Amorim, um perueiro, que ele não identificou, teria presenciado, do outro lado da pista da Dutra, agressões e tiros disparados nos irmãos por policiais e fiscais. "Essa pessoa está sendo preservada, mas vamos apresentá-lo logo à polícia e à imprensa", afirmou.
O boletim de ocorrência no 4.º Distrito Policial de Guarulhos registra o caso como duplo homicídio doloso, de autoria desconhecida, e a apreensão do veículo. Vanderlei, que fazia a linha Parque Piratininga-Centro, foi atingido com tiros no rosto e na nuca.
Inspetor - O inspetor da Polícia Rodoviária Federal Sérgio Manoel de Castro refutou as acusações dos perueiros de participação de agentes no crime. "Isso é um completo absurdo e tem como objetivo acabar com a fiscalização", rebateu. De acordo com ele, um veículo da Polícia Rodoviária esteve no local
mas depois do crime, somente para socorrer as vítimas.
Castro atribuiu o duplo homicídio a alguma disputa entre os próprios perueiros. "O assassinato tem características de execução", disse. Apreendido no pátio do 4º DP, o carro tem marcas de bala em um vidro lateral esquerdo e no espelho retrovisor do mesmo lado.
Colega de linha dos irmãos, o perueiro Alexandre da Silva, de 23 anos, disse ter ouvido Marcelo e Vanderlei pedir ajuda pelo rádio. "Eles disseram que estavam sendo seguidos pela fiscalização e, 15 minutos depois, foram mortos", contou.

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