Bauru, SP, 25 (AE) - A proprietária da Fazenda Val de Palmas - propriedade histórica de Bauru que esteve ocupada pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) e foi incendiada pelo grupo no dia da desocupação - está indignada com a diferença de tratamento dispensada pelo governo e seus órgãos em relação às áreas invadidas pertencentes aos cidadãos comuns e à propriedade do presidente Fernando Henrique Cardoso. Selma Nassrala Kassis disse que "não foi possível conter a revolta ao ver a mobilização de tropas estaduais e federais e tanta coisa para proteger a propriedade do presidente e lembrar que há seis meses o patrimônio construído pelo meu pai, em mais de 50 anos, foi esbulhado e incendiado, na presença da polícia, que se manteve inerte".
A indignação de Selma, sua mãe e irmãos - proprietários da fazenda - está manifestada numa carta que a família está enviando ao presidente FHC. "De uma forma elegante mas grave, estamos dizendo ao senhor presidente que todos nós, os atingidos pelo vandalismo do MST, em todo o território nacional, esperamos que, doravante, nossos prejuízos e aflições sejam resolvidos com medidas e rapidez idênticas às dispensadas ao fazendeiro Fernando Henrique Cardoso", diz.
Os sem-terra ocuparam a Fazenda Val de Palmas no dia 19 de junho. No dia 24 o juiz Mauro Ruiz Daró, da 3ª Vara Cível de Bauru, expediu a liminar de reintegração, mas a polícia só cumpriu a ordem no dia 14 de julho. Durante a ocupação, o grupo quebrou móveis da casa-sede, abateu 81 cabeças de gado e, nos últimos dois dias, incendiou pastagens, casas e barracões, numa demonstração de força diante da tropa policial que já se encontrava na área.
Depois da desocupação o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) vistoriou a propriedade e concluiu que ela não se presta ao assentamento porque além de produtiva, suas terras são arenosas e muito próximas da área urbana. Além das providências criminais que tramitam pelo fórum de Bauru, a família contratou advogados e peritos especializados para levantar os prejuízos e mover ações contra o Estado que, retardando o cumprimento da ordem judicial de desocupação, deu causa à depredação da propriedade.
Construída em 1895 - um ano antes da criação do município - Val de Palmas foi a maior produtora mundial de café, com 2,5 milhões de pés, na virada do século. Nos anos 50, suas terras foram divididas em várias propriedades. Na casa-sede, de 17 cômodos, os proprietários projetavam a instalação de um hotel-fazenda e de um museu regional, mas parte do acervo foi destruída na ocupação.





