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quinta-feira, 25 de novembro de 1999
Por Clarissa Thomé 
Rio, 25 (AE) - O Ministério da Agricultura está examinando uma amostra da cerveja alemã Cannabis, feita de Humulus Lupulus, uma planta da família da Cannabis sativa (maconha). Um lote da bebida chegou ao País há 10 dias, importado por um grupo carioca, e está armazenado no Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio. A cerveja não teria efeito alucinógeno, segundo os importadores, mas o princípio ativo é indicado como sonífero, hipnótico e sedativo, no site do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (www.usda.gov).
A liberação da Cannabis tem esbarrado na reprovação até do deputado federal Fernando Gabeira (PV), conhecido por defender a descriminação da maconha. "O número de pessoas que adoece ou comete crimes sob efeito do álcool é muito grande e deveria haver campanha para redução do consumo não de incentivo", afirmou o parlamentar.
A Cannabis é feita à base de água, malte e Humulus lupulus. Este último componente, pouco conhecido no Brasil, substitui a cevada na preparação da bebida. A perita em Toxicologia do Instituto Médico Legal Eliane Spinelle pesquisou sites de botânica na Internet e encontrou registros do uso do Humulus lupulus na Europa como sedativo. Aliado ao álcool, induziria ao sono.
"O que preocupa é que esse efeito sedativo pode ser potencializado com a ingestão do álcool", alerta a perita. "Quem toma dois copos de cerveja comum já tem perda dos reflexos e o princípio do Humulus lupulus atinge ainda mais o sistema nervoso central". Eliane defende um teste comparativo entre os dois tipos de cerveja antes da liberação.
Para o diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Luiz Felipe Moreira Lima, os produtores e importadores da Cannabis deveriam ser processados por propaganda enganosa. "O lúpulo é apenas o composto que dá sabor amargo à cerveja", diz o diretor. "Eles podem até requerer ao Ministério da Agricultura autorização para comercializar a bebida mas vão ter problemas com o nome, já que essa é uma planta proscrita".
O chefe do Serviço de Inspeção Vegetal do Ministério da Agricultura no Rio, Romeu de Paula, disse que para a cerveja ser liberada precisa ter as mesmas especificações técnicas da bebida brasileira. "Do contrário, o país de origem terá de atestar que a bebida tem alto consumo", afirmou.
A cerveja foi importada por uma empresa que comercializa tecidos de cânhamo (fibra da maconha) manufaturado em outros países. O deputado Fernando Gabeira defende a importação dos tecidos. "São orgânicos, com cores naturais, às vezes 100% hemp (maconha em inglês), outras vezes misturado com algodão e até seda", afirma Gabeira. Ele, no entanto, não quer se envolver com a cerveja. "Eles querem trazer uma amostra, para testar o mercado consumidor; é um nicho muito pequeno e eu não quero fortalecer a entrada da cerveja no Brasil".
A Cannabis é produzida pela cervejaria Heaven-Bru e exportada para todo o planeta - uma caixa com 24 garrafas do tipo bock sai a US$ 28,86 mais as despesas de envio. No site da empresa (www.heaven-brau.com), os produtores defendem a bebida, alegando que ela é "mais que uma cerveja, uma filosofia". A Heaven-Brau fabrica cerveja bock, premium, light e uma bebida esverdeada para ser consumida em "copos de champanhe".
As duas caixas de Cannabis que estão no aeroporto do Rio desde o último dia 15 não serão liberadas sem o aval do Ministério da Agricultura e da Polícia Federal, segundo o chefe da Receita Federal no aeroporto, Peter Toffe. "Até agora não foi apresentado despacho de importação da cerveja", afirmou o fiscal. "Acredito que eles estejam receosos". Os importadores, que preferem ficar anônimos, não querem comentar o assunto, de acordo com uma assessora de Gabeira.


