São Paulo, 25 (AE) - Neil Jordan insiste, mas as experiências hollywoodianas estão longe de representar o melhor de sua obra. "Não Somos Anjos" é um vexame, "Entrevista com o Vampiro", um pouco menos; agora é a vez de "A Premonição". Parece uma versão mais sofisticada de "A Hora do Pesadelo", sobre um psicopata que irrompe nos sonhos de uma mulher, atormentando-a com as imagens de assassinatos que vai cometer. Só que em vez de uma nova versão de Freddy Krueger, Jordan prefere fazer a sua releitura de Alfred Hitchcock, criando o Norman Bates dos anos 90, o psicopata edipiano interpretado por Robert Downey Jr.
Irlandês de nascimento, romancista além de cineasta, Jordan deve sua fama especialmente a "Traídos pelo Desejo", que fez sensação, anos atrás, com a revelação da sexualidade dúbia do personagem interpretado por Jaye Davidson. Mas ele talvez seja melhor em filmes aparentemente menos ambiciosos como "À Procura do Destino", em que tratou do incesto. Embora muito bom, "À Procura do Destino" fez carreira modesta nos cinemas brasileiros, não atraindo nem de longe um público proporcional a suas qualidades. O sucesso que Jordan não teve com sua pequena obra-prima vai obter com "A Premonição", com certeza.
Se você gosta de tomar sustos no cinema, se o seu objetivo é esbaldar o Id sentindo medo, esse é o filme. "A Premonição" chega a ser desagradável, de tão perturbador. Não sendo exatamente um produto na mesma linha, deve atrair o mesmo numeroso público que sofreu com "O Sexto Sentido". O filme com Bruce Willis, ainda em cartaz na cidade, joga com o medo do espectador em relação à vida após a morte. Parte do princípio de que a morte não é o fim de tudo. É um preceito religioso que o diretor M. Night Shamalayan transforma em pretexto para uma experiência de terror.
Em "A Premonição", o espectador deve aceitar o princípio de que uma pessoa pode mesmo sonhar a vida de outra. É o que faz a personagem de Annette Bening. Ela tem sonhos recorrentes que remetem a assassinatos de crianças que estão ocorrendo na região. Mas o que ela inicialmente toma como experiência passada é, na verdade, experiência futura, que ainda vai acontecer. Duplamente atingida na sua vida pessoal e familiar, a personagem vai tentar chegar, por meio dos sonhos, ao criminoso. Faz a ponte com o personagem de Downey Jr.
Pode-se até estranhar por que Jordan quis fazer esse filme, mas não há dúvida de que ele tratou de fazer de "A Premonição" uma espécie de súmula de sua obra. O filme é um somatório de influências e situações já vistas anteriormente na obra do diretor. Não chega a ser, por causa disso, um projeto tão intensamente pessoal. O garoto criminoso vem de "Nó na Garganta", o travesti evoca "Traídos pelo Desejo" e as cenas subaquáticas têm tudo a ver com as de "Não Somos Anjos". Não falta aqui o reencontro, debaixo dágua, da mãe com a filha que morreu, numa imagem que evoca o milagre daquele filme (a cena com a santa).
As semelhanças não ficam por aí. O tema das visões é frequente em quase tudo o que ele faz. Os adolescentes de "À Procura do Destino" vivem inventando histórias, o menino de "Nó na Garganta" vê a Virgem Maria. Até a música. Depois de Nat King Cole (Mona Lisa no filme de mesmo nome, Stardust em "À Procura do Destino"), ele usa agora Ruby. Nada disso chega a ser muito profundo e pode até mesmo ser considerado mistificação de um cineasta que está mais preocupado em faturar, posando de autor. Mas não há dúvida de que o filme, como viagem ao mundo das mentes perturbadas e enfermas, mete medo. Downey Jr. vai tirar o sono de muita gente, que, depois de A Premonição, vai ter medo de deitar e sonhar. SERVIÇO - A Premonição. Suspense. Direção de Neil Jordan. Com Annette Bening, Aidan Quinn, Stephen Rea, Robert Downey Jr., Katie Sagona. Duração: 98 minutos.14 anos. Distribuição: United International Pictures

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