PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de novembro de 1999
Por Mauro Carvalho da Silva 
São Paulo, 25 (AE) - Um incêndio destruiu quase totalmente parcialmente a Favela Rio das Pedras, sob o viaduto da linha de trem, no Tatuapé, zona leste da capital paulista. O fogo se espalhou rapidamente, destruindo 75 dos 85 dos barracos da favela. A circulação das composições do metrô foi suspensa. Não houve vítimas, mas o trânsito no cruzamento da Avenida Salim Farah Maluf com a Radial Leste ficou congestionado, dificultando o acesso do Corpo de Bombeiros.
"Levamos cerca de 20 minutos para atender o chamado", disse o coronel Orlando Rodrigues Camargo, comandante do Corpo de Bombeiros de São Paulo.
"Foram acionados os efetivos dos quartéis do Belém e da Mooca
os mais próximos, mas mesmo assim os congestionamentos prejudicaram, principalmente dos carros pipas, o que provocou a falta de água", acrescentou. Para ele o problema só será resolvido com a ampliação da rede de hidrantes na cidade.
Quando os bombeiros chegaram o fogo tomava conta da favela. "A nossa preocupação maior foi evitar que as chamas atingissem cerca de 10 barracos sob o viaduto da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos e danificasse a estrutura da obra", afirmou.
A desempregada Rosileine Costa Siqueira, de 21 anos, conversava com a amiga Maria de Lourdes Alves, 22, a Codó, num dos becos da Favela Rio das Pedras. "Codó, tá saindo uma fumaça preta do seu barraco", gritou.
Rosileine e Codó quando abriram a porta do barraco viram que o fogo se alastrava do colchão para as paredes de madeira. Disseram que não havia ninguém nem velas acesas. "A Eletropaulo informou que na favela havia muitas gambiarras e isso pode ter provocado uma sobrecarga e o incêndio", suspeita o coronel Camargo.
Os bombeiros também constataram a existência de vários botijões de gás com as válvulas rompidas. "O gás deve ter se expandido, alimentando as chamas."
Rosileine só teve tempo de salvar seus documentos, Codó nem isso. Perdeu o fogão, armário, roupas, aparelho de som, os documentos da filha, dos pais e dos irmãos, e a televisão, que ainda não acabou de pagar.
O ajudante de pedreiro Manoel Cândido da Silva, 47, pai de 12 filhos, teve mais sorte. Trabalhava numa obra na Vila Maria, quando viu o incêndio pela televisão. "Tá pegando fogo onde moro", gritou para o amigo, enquanto montava em sua bicicleta.
"Vim correndo como um doido, mas graças a Deus quando cheguei vi que o barraco não havia sido destruido e minha mulher tinha posto nossos bens na calçada."
Por alguns momentos, a circulação de trens do metrô foi suspensa. Mas dezenas de passageiros invadiram a linha para atingir a pé a Estação do Tatuapé. Alguns, quando passavam pelo viaduto, cuspiam nos desabrigados ou faziam brincadeiras. Revoltados, os favelados gritavam palavrões ou atiravam pedras.
Durante a noite, três assistentes sociais da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social fizeram o cadastramento dos desabrigados. Quem desejasse poderia a ir para um dos albergues da Prefeitura, casas de amigos ou parentes ou receber dinheiro para voltar a suas cidades de origem. Ninguém se mostrou interessado nos albergues.


