PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de novembro de 1999
Por Vera Rosa (enviada especial) 
Belo Horizonte, 24 (AE) - Radicais do PT consideraram "oportunista" a afirmação do presidente do partido, deputado José Dirceu (SP), de que a esquerda está fadada à derrota se apresentar um programa socialista na eleição de 2002. Na abertura do 2.º Congresso Nacional do PT, em Belo Horizonte (MG)
as declarações de Dirceu agitaram o debate em torno do modelo a ser seguido pela legenda dez anos depois da queda do Muro de Berlim.
"Essa linha de ganhar a eleição a qualquer custo é suicida", afirmou o deputado Milton Temer (RJ), que no domingo vai disputar a presidência do PT com Dirceu, candidato à reeleição, e com o também deputado Arlindo Chinaglia (SP). Apoiado por todas as facções radicais petistas, Temer disse estar "muito preocupado" com o teor das polêmicas em seu partido. "Eu falei o óbvio ululante e isso é retórica pré-eleitoral", rebateu Dirceu. "Elegemos governadores como Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, que não apresentaram um programa socialista." O bate-boca aumentou de tom porque Temer não aceitou os argumentos de Dirceu. "Ninguém está pedindo para adotar o programa socialista, até porque ninguém é louco", ressalvou. Para ele, esse debate nasceu com "embocadura boa" no partido: criticando o autoritarismo do Leste Europeu e o "conformismo melhorista" da social-democracia. Mas agora, no seu diagnóstico, transformou-se em questão de pragmatismo eleitoral.
Garotinho - No turbilhão ideológico que move a disputa de idéias no PT, sobraram farpas até mesmo para o governador do Rio
Anthony Garotinho - integrante de um partido aliado, o PDT, que hoje vive às turras com o PT- e para o ex-ministro Ciro Gomes (PPS). "Se disputar a Presidência da República significa abrir mão de um norte estratégico, como o socialismo, devemos esclarecer para que queremos a Presidência e para que serve o PT", argumentou Temer. "Se for para isso, não precisa de PT porque já existem Ciro e Garotinho", emendou, ao lembrar que os dois são prováveis candidatos ao Planalto.
A abertura do leque de alianças eleitorais, para ultrapassar as fronteiras da esquerda e conquistar o centro, é um dos principais pontos defendidos pelos moderados para chegar ao poder. Embora um acordo com Ciro seja visto como "muito improvável" por Dirceu, ele não descarta a possibilidade de coligações regionais com o PPS. "Para o PT se transformar no maior partido político, é preciso desmontar a coalizão de direita e ser aliancista", destacou Dirceu, que se define como "um marxista-humanista". "Será que ele esqueceu que "o PT que diz sim" já perdeu várias eleições?", provocou Temer.
Na opinião de Valter Pomar, um dos vice-presidentes do PT, os moderados estão caminhando para um socialismo envergonhado. Dirceu negou, irritado. "O PT não tem de esconder nada, a sociedade não é retardada e não vamos deixar de fazer críticas ao capitalismo", sustentou. Dirigente da Articulação de Esquerda, tendência "xiita" na correlação de forças do petismo
Pomar foi irônico e disse não entender essa posição, qualificada por ele de oportunista. "Quando o capitalismo não está em crise, eles dizem que o socialismo não emplaca e, quando o capitalismo está muito mal, falam que temos de concentrar as críticas nos aspectos negativos desse modelo e ampliar alianças para combater o neoliberalismo", resumiu. "Então, quando vamos defender o socialismo?"
Pomar acha que Dirceu e seus apoiadores, incluindo o líder do PT na Câmara, deputado José Genoíno, transformaram o socialismo "num penduricalho". Ele observou que também não prega um programa socialista a curto prazo. Mas disse que sua facção tem sérias divergências com "O Programa da Revolução Democrática" - tese apresentada pelos moderados da Articulação/Unidade na Luta - porque ele não defende a estatização do mercado financeiro nem a retomada das empresas privatizadas pelo Estado e muito menos a moratória da dívida externa.
Para o secretário de Organização do PT, Joaquim Soriano, a luta pelo socialismo faz parte de um programa para atendimento de questões imediatas da população. Do grupo Democracia Socialista (D.S.), Soriano foi um pouco mais econômico nos comentários contra os moderados. "Tudo depende do que o José Dirceu quis dizer", ponderou. A tese da D.S., batizada de "Nosso Tempo", admite, porém, que uma das dificuldades sofridas pelo PT nos últimos anos é que o descrédito no socialismo deixou o partido "sem uma alternativa popular global para a crise do capitalismo, e, portanto, em desvantagem para enfrentar os neoliberais."


