Buenos Aires, 24 (AE) - "Proporcionar confiança": esta foi a diretriz aplicada pelo presidente eleito da Argentina, Fernando de la Rúa, ao escolher os nomes que formarão seu gabinete, anunciado nesta quarta-feira no fim da tarde.
De dez ministros, quatro são economistas de destaque, além de serem conservadores, o que afasta a idéia de que a Aliança UCR-Frepaso será de "centro-esquerda". Para reforçar a confiabilidade aos mercados, os seis restantes são estrelas de máxima magnitude da constelação política argentina, e possuem amplo respaldo de seus partidos de origem.
No entanto, a Aliança, vencedora das eleições presidenciais de outubro, não dividiu proporcionalmente os ministérios. A UCR, partido de De la Rúa, ficou com oito pastas: Economia, Relações Exteriores, Infra-estrutura e Moradia, Interior, Educação, Justiça, Saúde e Defesa, além da chefia de gabinete e a secretaria-geral. O Frepaso, partido do vice-presidente Carlos "Chacho" álvarez, somente conseguiu as escassas de verbas e problemáticas pastas de Ação Social e Trabalho.
Após apresentar seus ministros, De la Rúa disse que a Argentina está em uma situação econômica difícil, e criticando indiretamente o presidente Carlos Menem, disse que o déficit fiscal, "é inexplicável depois de tudo o que se vendeu e privatizou. Além disso, temos um déficit moral, resultado da corrupção que devorou o Estado. É certo que a tarefa não será fácil...".
De la Rúa disse que as pessoas que designou como ministros são as melhores, "capazes de produzir a grande mudança que o país necessita", e que seu principal objetivo será a luta contra a corrupção. De la Rúa também afirmou que pretende diminuir à metade os gastos da estrutura governamental reduzindo o número de secretarias e subsecretarias.
O gabinete De la Rúa foi considerado demasiado à direita por integrantes do Frepaso, e também por lideranças da UCR. As designações de De la Rúa foram impregnadas por uma forte relação pessoal. Segundo analistas, com este gabinete, o presidente eleito cortou a presença de elementos do círculo do ex-presidente Raúl Alfonsín. Somente um dos ministros pertence à área de influência do ex-presidente, que ainda hoje exerce fortíssima influência no partido.
Os ministros que tomarão posse no dia dez de dezembro são os seguintes: - Economia: José Luis Machinea. Neto de bascos (seu sobrenome pronuncia-se "Matchinéa") nasceu há 53 anos na Patagônia. Economista, fez doutorado na Universidade de Minnesota. No governo do presidente Raúl Alfonsín foi sub-secretário de Planejamento e posterioremente de Política Econômica. Presidente do Banco Central Argentino entre 1986 e 1989, saiu do governo quando começou a hiper-inflação. Pouco depois de formada a Aliança UCR-Frepaso, em agosto de 1997, seu nome começou a ser cotado como futuro ministro da Economia. Embora filiado à UCR, a designação de Machinea teve total apoio do Frepaso, que preferia seu perfil moderado em oposicão a outros economistas mais conservadores. - Relações Exteriores: Adalberto Rodríguez Giavarini. Economista de 55 anos, foi secretário de Fazenda da cidade de Buenos Aires de 1996 a 1998. Famoso pela sua honestidade, essa característica o confrontou com setores de seu partido que causaram sua demissão do cargo. É considerado um dos melhores administradores públicos do país. Giavarini levaria para a chancelaria parte das atribuições atuais da Secretaria de Indústria e Comércio, de forma a ter maior poder de negociação na área internacional. - Educação: Juan Llach. Economista nascido em 1943, foi chefe de assessores do ex-ministro da Economia Domingo Cavallo, e também seu vice-ministro. Sua nomeação causou polêmica no poderoso sindicato dos professores, que nesta quarta-feira organizou uma greve. O protesto estava dirigido contra o governo do presidente Carlos Menem, mas também foi um alerta ao novo ministro. - Defesa: Ricardo López Murphy. Economista de 48 anos, é o mais jovem do gabinete, e também um dos mais polêmicos. Ex-consultor do FMI, chefia a FIEL (Fundação de Investigações Econômicas Latino-americanas).
O ministério do Interior ficou com Federico Storani, o único "alfonsinista" do gabinete; Justiça ficará com Ricardo Gil Lavedra, que no cargo de juiz federal, em 1984 participou do julgamento aos comandantes da Ditadura por violações aos Direitos Humanos. O recém-criado ministério da Infra-estrutura ficará nas mãos de Niclás Gallo. O ministério da Saúde fica com Héctor Lombardo, que foi secretário da saúde da cidade de Buenos Aires.
Embora não sejam ministros, dois cargos são fundamentais no gabinete argentino: a chefia de gabinete, que estará a cargo de Rodolfo Terragno, considerado o "intelectual" da UCR, e Jorge De la Rúa, irmão do presidente eleito, que será seu secretário-geral da presidência.
O Frepaso conseguiu a pasta de Ação Social para Graciela Fernández Meijide, candidata derrotada da Aliança ao governo da província de Buenos Aires. Ela ficará a cargo dos programas de assistência aos desempregados e às populações carentes. O outro ministério será o do Trabalho, nas mãos de Alberto Flamarique.
Além de proporcionar confiança, a forte presença de economistas no gabinete De la Rúa pretende possibilitar que exista um grupo de economistas à disposição já integrados no governo, caso seja necessário cobrir a eventual falta ou remoção de alguém. Este seria o caso do ministro da Defesa, López Murphy
apreciado pelos mercados, aos quais agradou a meados do ano ao propor uma redução de 20% nos salários dos trabalhadores. Na segunda-feira, o anúncio de que quatro economistas estariam no gabinete fez a bolsa portenha subir quase 4%.

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