Jerusalém, 24 (AE-AP) - Atas secretas do julgamento do técnico nuclear israelense Mordechai Vanunu, condenado a 18 anos de prisão por espionagem, foram divulgadas pela primeira vez hoje (24) pelo diário local Yediot Ahronot, que obteve permissão da Justiça para a publicação.
Vanunu foi sequestrado em Londres pelo serviço secreto de Israel, o Mossad, e levado a Tel-Aviv para julgamento após ter dito ao jornal britânico The Sunday Times, em 1986, que seu país possuía mais de 200 bombas atômicas na ultra-secreta central nuclear de Dimona, onde ele havia trabalhado.
"Eu queria confirmar o que todo mundo já sabia. Queria que o lugar fosse posto sob supervisão regular (aparentemente, ele se referia aos inspetores internacionais de armas nucleares, nunca autorizados a ir a Dimona)", disse Vanunu na época, de acordo com as atas reveladas hoje. "Agora, Shimon Peres (o então primeiro-ministro de Israel) não pode mais mentir para Ronald Reagan e dizer que não temos armas nucleares. Agora, todo mundo sabe", afirmou Vanunu. Israel nunca admitiu que possui armas nucleares.
O material pouco acrescentou ao que já se sabe sobre o caso, mas contribuiu para trazer à tona novamente o debate sobre a capacidade nuclear israelense e a demanda pela comutação da pena de Vanunu, feita por seu advogado, Avigdor Feldman. Vanunu passou 12 anos confinado numa cela, sozinho. "Ele quase perdeu o juízo, mas, depois que saiu da solitária, suas condições mudaram drasticamente", comentou Feldman, que está tentando obter a redução da pena para um terço e assim libertá-lo.
O ex-primeiro-ministro Peres,considerado o pai do programa nuclear israelense, lamentou hoje a publicação das 1.200 páginas liberadas do processo, em entrevista à Rádio Israel. Foi Peres quem deu a ordem para que Vanunu fosse sequestrado. Ele afirmou que há informações que precisam permanecer secretas e disse temer que sua divulgação provoque o aumento da pressão internacional sobre o país na questão nuclear. O Yediot Ahronot esclareceu que a seleção do que poderia vir a público foi feita por autoridades da área de segurança.





