Paris, 24 (AE) - Os três Deuses únicos o de Israel, o de Roma e o da Meca estão à beira de um ataque de nervos. Cada um deles está, nesta noite, a dois dedos de maldizer os outros dois. O motivo? A construção de uma mesquita na cidade de Nazaré, que tem a aprovação do governo de Jerusalém. Pedra fundamental foi colocada, ontem à noite, para a alegria de milhares de muçulmanos.
A réplica chegou de Roma a todo vapor, fulgurante. O Vaticano, habitualmente tão prudente, dedicou-se à reconciliação entre os judeus e os cristãos, ameaçou os israelenses, avaliando que eles "parecem colocar os fundamentos para futuras discórdias e tensões entre as duas comunidades religiosas, a cristã e a islâmica".
A "congestão" de Roma surpreende, mas é preciso lembrar o que Nazaré representa para os cristãos: a basílica da Anunciação é um dos lugares mais sagrados da religião cristã, uma vez que ela está erguida, segundo a tradição, no lugar em que o anjo Gabriel anunciou à Virgem Maria que ela seria, logo depois, a mãe de Cristo e esse anjo não estava enganado.
Diante desse acontecimento divino, os cristãos se perguntam, qual a sua importância, se o mesmo lugar contém o túmulo de Chehabedine, que era sobrinho do grande conquistador Saladino, piedosamente enterrado ali no século XII: como comparar o lugar sacralizado pelo anjo Gabriel, pela Virgem e, mais tarde, por Jesus, que passou sua infância em Nazaré com uma lembrança puramente profana e guerreira, a de um conquistador muçulmano! (grande inimigo dos cristãos durante as Cruzadas, o que, além do mais, não vem ao caso). São reclamações dos cristãos de Nazaré e, aliás, retransmitidas com uma impetuosidade juvenil pelo Vaticano.
Por parte dos israelenses, duas coisas são explicadas: de um lado, Israel tem algo a fazer com os árabes, os árabes de Israel, entre outros, por exemplo, aqueles que são fortemente majoritários, hoje, na cidade de Nazaré. E, por outro lado, não foi o papa João Paulo II, precisamente, que sempre defendeu a "liberdade religiosa"? Ao autorizar a mesquita em Nazaré, Israel não estava na mesma linha das pregações do papa?
Esse assunto, grave, revela também as "insinuações" que subsistem nas cabeças das três partes: o papa quer muito sinceramente apagar as antigas cicatrizes. Ele desembainhou um de seus famosos "mea culpa" históricos para todas as vilanias que a Igreja cometeu em relação a Israel há dois milênios. Mas o incidente atual e a violência da reação do Vaticano mostram que os rancores ou as desconfianças do passado estão longe de serem liquidados.
Por parte de Israel, a mesma complexidade: certamente, o governo de Jerusalém repete, com razão, que a liberdade de acesso e de culto aos lugares santos jamais foi tão bem protegida outrora (durante o período dos Otomanos, durante o mandato britânico ou por ocasião do reino da Jordânia) do que é, hoje, com a administração israelense.
Isso é certo. Mas também o é que os israelenses são obrigados a levar em consideração impulsos e reivindicações da população árabe de Israel, estando bem claro que, nesse assunto, seja o deus cristão, judeu ou muçulmano, os parâmetros políticos são bem presentes. O que explica que, muito provavelmente, os três deuses únicos devem estar, hoje à noite, ao mesmo tempo incrédulos e desolados, eles que amam tanto a concórdia, o amor e a caridade.

mockup