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quarta-feira, 24 de novembro de 1999
Por Kátia Brasil 
Manaus, 24 (AE) - O Ministério Público Federal requisitou nesta quarta-feira (24) à Polícia Federal (PF) abertura de inquérito para investigar o envolvimento da assessora jurídica da Corregedoria-Geral da Justiça do Estado do Amazonas, Soraya Lilia Trucinskas, em adoções internacionais de crianças.
Ela foi a autora da denúncia de venda de crianças brasileiras contra a agência norte-americana Limiar. O pedido do procurador-chefe Sérgio Lauria Ferreira foi baseado no artigo 239 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que trata da promoção ou participação no envio de criança ou adolescente para o exterior sem obediência às leis ou com objetivo de obter lucro. O crime tem penalidades de 4 a 6 anos de reclusão e multa.
Soraya terá de explicar suas ligações com a agência Adoption Consultant Facilitator Co. "Há indícios de prática de comércio de crianças", disse o procurador-chefe, Sérgio Lauria Ferreira. "Isto é um atentado aos valores do Estatuto da Criança e do Adolescente."
O procurador anexou à requisição do inquérito cópias de reportagens do jornal O Estado de S. Paulo, que identificou após um mês de investigações a autora das denúncias contra a Limiar. Ferreira disse que também convocará os representantes da Limiar no Brasil e os autores da reportagem.
Amanhã, a PF deverá destacar um delegado para apurar o caso, que repercute muito entre os juizes da área da Infância e Adolescência.
Em 22 de abril, Soraya denunciou que a Limiar cobrava de US$ 5.000 a US$ 8.000 pelas adoções que intermediava no Brasil. A denúncia chegou por e-mail ao desembargador Ozires Fontoura, corregedor-geral da Justiça do Estado do Paraná e presidente da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja).
Fontoura suspendeu os processos de adoções a cargo da Limiar, desencadeando decisão semelhante pelas autoridades de São Paulo e Santa Catarina. No e-mail, a assessora colocou-se à disposição do desembargador para ajudar na investigação contra a agência, mas omitiu seu envolvimento com adoções e com a Justiça do Amazonas.
O Estado de S. Paulo descobriu que Soraya (que no e-mail se assina Daragaia) é filha de um dos membros da Comissão Judiciária de Adoção Internacional do Estado do Amazonas, o desembargador-corregedor Daniel Ferreira da Silva.
Hoje, a assessora publicou nos jornais de Manaus uma nota de esclarecimento, afirmando que a reportagem do jornal é "mentirosa" e "leviana" e teria denegrido sua honra e a de sua família. Ela negou seu envolvimento com adoções internacionais e o licenciamento de uma agência de adoções no Estado da Flórida (EUA).
O Estado de S. Paulo tem cópias de e-mails de março e abril onde a própria Soraya/Daragaia descreve que é proprietária da agência e mora nos Estados Unidos. Às 19 horas do dia 19 de abril, num bate-papo na sala Adoptbrazil, na Internet, Soraya/Daragaia - ao explicar para um interlocutor sobre dupla nacionalidade de crianças adotadas - afirma que mora nos Estados Unidos: "Um garoto foi adotado e recebeu a cidadania americana. Para voltar ao Brasil como um americano, ele deve ter o visto de turista. Se ele não tiver um passaporte brasileiro. É como aqui! Eu posso afirmar porque eu moro nos Estados Unidos com o meu passaporte brasileiro. E eu retorno com o meu passaporte americano. Ninguém pergunta nada. Tudo que eles dizem é me desejarem uma boa viagem."
Em outro e-mail de 16 de abril, às 15h24, ela diz que iniciou um processo para receber licença do Estado da Flórida para abertura de uma agência de adoções. "Uma agência licenciada com psicólogos, assistentes sociais, advogados, psiquiatras e psicólogos", comenta. "Se isto der certo aqui e no Brasil, em um mês tudo estará pronto."
Na nota à imprensa de Manaus, Soraya Trucinskas disse que a reportagem foi motivada "talvez, pelo fato de haver me negado a conceder qualquer entrevista sobre o assunto" ao jornal. Desde o dia 4, a reportagem tenta ouvi-la sem obter resposta.


