Rio, 24 (AE) - O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) José Rainha Júnior chamou hoje o presidente Fernando Henrique Cardoso de latifundiário ao comentar o episódio do acampamento de sem-terra em frente a fazenda Buritis (MG). "O que fizeram lá foi defender um latifúndio, o cidadão latifundiário Fernando Henrique Cardoso, não o Presidente da República, porque ele não estava no seu exercício, muito menos dentro daquele latifúndio", afirmou Rainha, referindo-se à utilização do Exército na operação.
"Acho que o Exército um dia deve sair às ruas para defender o povo, para defender a Nação." Rainha, que está afastado da direção nacional do MST há dois anos, esteve no Rio para participar do lançamento de uma campanha nacional pela sua absolvição, no Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB). Rainha será julgado novamente em dezembro pela morte de um fazendeiro e de um policial militar em 1989, em Pedro Canário, ES.
O líder sem-terra foi condenado, em 1997, a 26 anos e seis meses de prisão pelo Tribunal do Júri de Pedro Canário. Como a sentença foi superior ao 19 anos, ele obteve direito a novo julgamento. O júri foi transferido para Vitória e marcado para 13 de dezembro, porque o Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJ-ES) entendeu que havia o risco de um julgamento parcial no município onde ocorreu o crime. Rainha é acusado de ter organizado o grupo de trabalhadores sem-terra que invadiu a propriedade do fazendeiro José Machado Neto, morto durante a invasão com o policial militar Sérgio Narciso.
O líder do MST alega que estava no Ceará no dia do crime
5 de junho de 1989. As testemunhas de defesa serão as mesmas do primeiro julgamento. "O único objetivo dessa condenação é a perseguição política, porque sou inocente", afirmou Rainha. "O jurado foi comprado; não existe prova técnica."
No Rio, ele recebeu o apoio de advogados. "Se Rainha for condenado, estaremos órfãos de Justiça no País, esse julgamento é uma farsa", afirmou o ex-presidente do IAB, Hermann Assis Baeta. O presidente eleito do IAB, Marcelo Cerqueira, também criticou a participação do Exército no episódio do acampamento de sem-terra na frente da fazenda de FHC. "É o mais grave precedente criado desde o fim da ditadura militar."
Rainha segue amanhã para Belo Horizonte e, depois, vai para o Ceará encontrar-se com as testemunhas de defesa. A partir de 3 de dezembro participa de um encontro latino-americano de entidades de defesa dos direitos humanos no Rio Grande do Sul. "Vou para buscar e receber solidariedade", disse.

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