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quarta-feira, 24 de novembro de 1999
Por Marli Olmos 
São Paulo, 24 (AE) - A indústria de autopeças ameaça interromper o fornecimento se as montadoras continuarem recusando o repasse de reajustes de preços de matérias-primas. O Sindicato Nacional da Indústria de Componentes (Sindipeças) enviou uma carta a todos os presidentes de montadoras avisando que as empresas do setor decidiram, em assembléia, não arcar mais com os reajustes de insumos. Segundo o presidente do Sindipeças, Paulo Butori, enquanto os preços dos carros subiram em média 25%, as autopeças reajustaram os preços em 8% este ano.
Butori explica que a recusa em pagar mais reajustes poderá levar os fornecedores de componentes a paralisar a produção, o que provocará, consequentemente, a parada das linhas de veículos. Até agosto papel e papelão subiram 39%; os produtos químicos, 37%; a borracha, 30% e tintas e vernizes, 26%. O aço, que havia subido 19% até agosto, foi reajustado em mais 12% no segundo semestre.
A rentabilidade do setor está negativa em 6% este ano e a previsão do Sindipeças é de ficar ainda negativa em 5% no ano 2000. A indústria de autopeças vai faturar este ano US$ 10 bilhões. O total representa uma queda de 32% na comparação com o ano passado, mas se descontada a desvalorização da moeda, a retração é de 10%.
O setor prevê recuperar-se no próximo ano e atingir faturamento de US$ 11 bilhões. O nível de investimentos caiu de US$ 1,58 bilhão em 1998 para US$ 1 bilhão este ano. A expectativa é investir US$ 1,1 bilhão no ano 2000. Nas exportações, a indústria conseguirá terminar o ano com superávit de US$ 50 milhões. Segundo Butori, havia expectativa de atingir um superávit de US$ 1 bilhão. Mas a crise na Argentina foi o principal motivo da queda.
A participação do capital estrangeiro na indústria de autopeças brasileira aumentou de 48% em 1994, o primeiro ano do Plano Real, para 69% este ano. Segundo o Sindipeças, as dificuldades financeiras continuam abalando as pequenas empresas nacionais.
Frota - O programa de renovação da frota deverá provocar um aumento de 20% na demanda de autopeças, segundo Butori. O empresário estima que entre 13% e 14% desse percentual virão por conta da inspeção veicular. Ou seja, haverá mais venda de peças de reposição para adequar os carros velhos à legislação. De 6% a 7% formarão a demanda de peças por conta do aumento de produção de veículos, estimulada pelo programa de estimulo à troca do carro.
Butori disse, porém, que o programa da frota só vai ter efeito se for criado junto com a regulamentação da inspeção veicular. A indústria estima que este programa entrará em vigor até fevereiro. É a esperança na renovação da frota que leva o Sindipeças a projetar a produção de 1,5 milhão de veículos no ano 2000. Este ano deverão ser produzidas 1,32 milhão de unidades. Segundo Butori, é esta expectativa que deverá segurar o nível de emprego em 167 mil trabalhadores no setor.
A indústria de peças trabalha com ociosidade de 35% e vai manter este nível no próximo ano. A média de encomendas de componentes das montadoras vai cair 15% este mês e 25% em dezembro na comparação com outubro. Segundo o presidente do Sindipeças, o setor deverá seguir as montadoras e conceder entre 20 e 25 dias de férias coletivas no final do ano. A maior parte das mondadoras está adiantando ou mesmo esticando o período de descanso tradicionalmente concedido entre Natal e Ano Novo, em razão da queda de vendas.
PIB - O Produto Interno Bruto (PIB),deverá crescer entre 1% e 2% no próximo ano, na avaliação de Paulo Butori. O líder empresarial disse não acreditar nas projeções de crescimento de 4% e nem tampouco espera que a inflação não passe de 6% no próximo ano.
Segundo ele, os exemplos de outras economias mostram que logo depois de um ataque especulativo da moeda, seguido pela desvalorização cambial, vem um período inflacionário. "O investidor internacional foi embora e qualquer crescimento do próximo ano depende de superávit", lembrou. "O governo deverá manter como prioridade a aceitação das regras estabelecidas pelo FMI, o que significa simplesmente o cumprimento do superávit fiscal, com pouco destaque para a área social" destacou.


