Washington, 24 (AE) - Em mais um forte sinal das dificuldades que ameaçam o lançamento de uma nova rodada de negociação global para a liberação comercial, durante a reunião ministerial da Orgnização Mundial de Comércio (OMC), na semana que vem, em Seattle, o presidente Bill Clinton abandonou os esforços para trazer alguns líderes mundiais para a abertura do evento, na terça-feira, depois de vê-la diplomaticamente rechaçada pelos presidentes do Brasil, áfrica do Sul e União Européia e os primeiros-ministros do Japão e da Austrália. Funcionários da administração disseram que o líder mais interessado em estar em Seattle foi o presidente de Cuba, Fidel Castro, cuja país é alvo de um embargo comercial dos Estados Unidos há quase 40 anos e é um dos poucos que Clinton não convidaria.
Segundo o jornal The New York Times, que revelou o malogro da iniciativa, a intenção da Casa Branca era usar a presença dos líderes para criar pressão política e obter o consenso não alcançado em dois meses de negociações sobre a agenda de temas a serem tratados na chamada Rodada do Milênio. O temor na administração americana é que os ministros que representarão os 135 membros da OMC não se sentirão politicamente capazes para resolver as enormes divergências que separam países e grupos de países em diferentes agrupamentos em temas que vão da redução das barreiras agrícolas (que os EUA e os países exportadores de alimentos querem, mas o Japão e a Europa não aceitam) à inclusão de claúsulas sociais e ambientais na OMC (exigida pelos americanos e alguns europeus e rejeitada pelos países em desenvolvimento e pelas grandes corporações empresarias dos países ricos), passando pela discussão das regras e práticas anti-dumping (uma demanda de todos que os EUA não admitem).
Na terça-feira, o impasse levou ao fracasso das negociações do acordo sobre os termos do lançamento da rodada - o documento básico da reunião de Seattle. "Cabe agora aos chefes políticos fazer disso um sucesso", disse o diretor-geral da OMC, o neo-zelandês Mike Moore, depois que os embaixadores dos 14 principais participantes do comércio internacional abandonaram as negociações.
A representante de comércio da Casa Branca, Charlene Barshefsky, procurou atenuar as diferenças dizendo que as interrupções e retomadas das discussões preparatórias são parte do jogo de negociação e, pessoalmente, não estava "nem um pouco preocupada" com o possível fracasso da reunião de Seattle. Ao mesmo tempo, ela enfatizou que Seattle é apenas o início do processo de revisão das leis de comércio internacional, que deverá durar pelo menos três anos.
Hoje, a secretária de Estado, Madeleine Albright, tentou reduzir a recusa dos líderes procurados pela Casa Branca para partilhar o palco com Clinton em Seattle a um problema de "conflito de calendário". "Teria sido bom ter algumas dessas pessoas lá, mas o sistema internacional é capaz de funcionar com os ministros", disse ela. "Esperamos ter uma sessão muito boa e robusta." Mas os esforços dos porta-vozes da administração para contornar o embaraço político criado pelo episódio não alteraram as previsões pessimistas que ele provocou, na esteira do colapso das negociações em Genebra.
Em meios bem informados, em Washington, já se contempla um cenário no qual a reunião de Seattle terminará com o lançamento de uma modesta pré-rodada de negociações, de 18 meses de duração
sem temas específicos.

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