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terça-feira, 23 de novembro de 1999
Por Vera Rosa (enviada especial_ 
Belo Horizonte, 23 (AE) - O PT está a um passo de enrolar a bandeira do socialismo no 2.º Congresso Nacional do partido, que começa amanhã (24), em Belo Horizonte (MG). Não se trata de rasgá-la, mas de guardar a lembrança no baú das referências históricas. "Se for para a esquerda apresentar um programa socialista, não vamos derrotar Fernando Henrique Cardoso", afirmou o deputado José Dirceu (SP), presidente do PT e candidato à reeleição. "É hora de mudar o PT e vamos mudar."
Os moderados que apóiam Dirceu e têm maioria no congresso defendem reformas dentro do capitalismo, como mudanças na política monetária e fiscal. Na tese intitulada "O Programa da Revolução Democrática", a corrente Articulação - liderada por José Dirceu e por Luiz Inácio Lula da Silva - prega "um projeto de reorganização da sociedade, da economia e da política que responda a uma outra hierarquia de valores". O texto sustenta que essa hierarquia deve ser baseada na igualdade, liberdade e solidariedade. Tudo para concluir que o socialismo não é inevitável.
A temperatura do congresso petista, que vai até domingo, subirá quando o debate for em torno da "revolução democrática". A escolha da tese-guia que vai nortear as discussões sobre os novos rumos e desafios do PT está marcada para quinta-feira (25). De um colégio eleitoral composto por 928 representantes, 53,02% são aliados de Dirceu. Isso significa que seu terceiro mandato à frente do PT está praticamente assegurado. Os outros dois candidatos à presidência do partido são os deputados Milton Temer (RJ), com o aval de todas as facções radicais, e Arlindo Chinaglia (SP), considerado "a terceira via" no espectro ideológico do petismo.
A vitória da tese da Articulação também é dada como certa, mas com emendas ao texto. "Não podemos concordar com os apóstolos da política compensatória nem com quem debate com ACM", provocou Temer, numa indireta a Lula, que se reuniu com o presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) para discutir alternativas de combate à pobreza.
Pacto - Para Dirceu, o PT precisa adotar uma posição mais pragmática se quiser ganhar as eleições. "Está ao alcance de nossas mãos governar o Brasil e o PT tem de recuperar a auto-estima e acreditar nisso", disse. Ao seu lado, Lula insistiu na necessidade de acabar com a divisão na frente de esquerdas. "Precisamos repactuar o partido, para não sermos um clube de amigos cercado de inimigos por todos os lados", comparou. Lula também condenou a guerra interna no PT. "Não é possível que uma metade fique remando pra frente e outra pra trás", advertiu.
O líder do partido na Câmara, José Genoíno (SP), mostrou-se satisfeito com o discurso dos antigos "companheiros". "O programa para o Brasil não é socialista: é de reformas econômicas, sociais e políticas", resumiu. Integrante da Democracia Radical, facção considerada "a direita" do PT, Genoíno confessou, há 15 dias, que não acreditava mais no socialismo como modelo."Estou ganhando adeptos", comemorou.
Ninguém admite, porém, enterrar o socialismo de vez. "Queremos recuperar os preceitos socialistas humanitários", observou Dirceu. "Se é para nos definir como marxistas, prefiro me definir como marxista-humanista." Ele nega que a nova roupagem, defendida pelos moderados, possa ser encarada como socialismo envergonhado. "O PT nasceu como partido socialista, mas não ortodoxo nem doutrinário e também não é marxista: condenou o socialismo com partido único, mas o desenlace foi outro", argumentou.
A três meses de completar 20 anos, a maior legenda de oposição promete manter a polêmica acesa ao menos até as eleições municipais do ano que vem. "Não podemos abrir mão de nossos programas em nome de ampliar alianças para ganhar eleições", concluiu Arlindo Chinaglia, atual secretário-geral do PT que também vai disputar o comando da sigla.


