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terça-feira, 23 de novembro de 1999
Por Clayton Levy 
Campinas, SP, 23 (AE) - Até as 17 horas de hoje, o legista Fortunato Badan Palhares não havia recebido convocação oficial para depor amanhã (24) à CPI do Narcotráfico. Os advogados do perito enviaram um fax ao presidente da CPI, deputado Magno Malta, pedindo a definição do dia e horário do depoimento. Caso Malta não responda, Palhares pretende viajar amanhã (24) pela manhã a Brasília e aguardar a sua vez de falar aos parlamentares.
"Estamos levando duas malas lotadas de documentos", disse hoje a advogada do legista, Tereza Doro. O material, segundo ela
inclui os laudos sobre a morte do empresário Paulo Cesar Farias
o PC, e de outros casos polêmicos. Tereza garante que Palhares está pronto para responder às perguntas dos parlamentares, mesmo com a saúde abalada. "Espero que os deputados examinem os documentos", disse.
O enfrentamento entre o perito e os parlamentares é o mais esperado porque poderá revelar ligações entre o crime organizado e as mortes de PC e sua namorada, Suzana Marcolino, em 1996.
O depoimento do legista estava marcado, inicialmente, para quinta-feira passada, mas foi adiado porque Palhares foi internado com uma crise renal. "Foi uma coincidência infeliz", disse, na ocasião, o médico de Palhares.
Um dia antes de a CPI chegar à cidade, Palhares disse que desejava aproveitar a sua convocação para esclarecer "de uma vez por todas" a polêmica sobre as mortes de PC Suzana. "Se me derem oportunidade, pretendo encerrar esse assunto definitivamente", dizia.
No dia seguinte, o relator da CPI referente a Campinas, deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), desembarcou na cidade acusando o legista de "vender laudos". O depoimento desta quarta-feira, caso se confirme, deverá ser marcado, principalmente, por um confronto entre os dois.
Pompeo preparou-se para a ocasião. Usará 51 fotografias que registraram a necrópsia feita nos corpos de PC e Suzana. As fotos foram encontradas no estacionamento de um posto de saúde em Campinas, em março do ano passado, mas só na última quarta-feira se tornaram públicas, através do atual diretor do Departamento de Medicina Legal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ricardo Molina de Figueiredo, desafeto declarado de Palhares.
Com as fotografias de PC e Suzana, foram encontradas outras fotos com imagens da necrópsia do ladrão de cargas Jonas Artur Gomes, o "Capeta", morto num confronto policial em março de 98. O material foi deixado dentro de uma pasta encontrada debaixo do portão do posto de saúde. No dia seguinte, o vigia as encaminhou para a Polícia Civil, que passou a investigar o caso.
As suspeitas de que o crime organizado poderia estar ligado à morte de PC surgiram em razão dos depoimentos do motorista Jorge Meres à CPI. Segundo ele, o empresário Willian Walder Sozza teria ligações com o chamado "esquema PC". A morte do tesoureiro de campanha do ex-presidente Fernando Collor de Mello teria beneficiado Sozza, que está foragido desde o dia 14 de outubro, além de outros integrantes da suposta quadrilha.
O legista continua sustentando que Suzana matou PC com um tiro no peito e depois cometeu suicídio. "Não tenho a menor dúvida a esse respeito", garante. Palhares considera "um absurdo" qualquer tentativa de envolver seu nome com o crime organizado a partir da morte de PC. O legista teve o sigilo de suas contas bancárias, telefônicas e fiscais quebrado pela CPI.
Embora as mortes de PC e sua namorada estejam na mira da CPI, Palhares foi convocado para esclarecer as denúncias de que o deputado maranhense José Gerardo Abreu (ex-PPB), teria mandado matar o estudante José Antonio Penha Brito Júnior, de 13 anos, desaparecido em São Luís em junho de 1988. O legista é acusado de manipular o laudo sobre a morte da suposta vítima para beneficiar Gerardo, apontado como um dos integrantes do crime organizado no País.
Segundo depoimento obtido pela CPI, o crime teria ocorrido porque o pai do estudante, José Antonio Penha Brito, que na época trabalhava como gerente de banco, recusou-se a conceder um empréstimo a Gerardo. O adolescente desapareceu em 19 de junho de 1988, na praia da Marcela, em São Luís. Um corpo encontrado cinco dias depois chegou a ser identificado pelo dentista do estudante, mas a família, inconformada, decidiu aprofundar os exames.
Palhares e o legista José Eduardo Zappa foram designados pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para exumar o corpo. Exames realizados em Campinas, segundo Palhares, revelaram que o corpo não era de Brito Júnior. Segundo Palhares, a superposição de imagens não foi coincidente e as análise feitas a partir de fios de cabelos e fragmentos ósseos apontaram tipos sanguíneos diferentes. O legista garante ter toda a documentação necessária para desfazer as suspeitas.


