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terça-feira, 23 de novembro de 1999
por Clayton Levy 
Campinas, SP, 23 (AE)- O sepultamento do investigador Luiz Roberto Lopes foi marcado hoje, em Campinas, por um clima de tristeza e revolta entre os policiais civis da cidade. Para eles, Lopes foi induzido ao suicídio pelos métodos "truculentos" e "arbitrários" adotados pela CPI do Narcotráfico. O investigador deveria depor na próxima sexta-feira, em Brasília, mas foi encontrado morto, ontem (22), com um tiro no peito, no banheiro da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), onde trabalhava.
Lopes foi citado pelo ladrão de cargas Gilmar Siqueira Leite como um dos policiais suspeitos de participar do narcotráfico. Segundo o delegado titular da Dise, Miguel Voigt Júnior, o investigador matou-se com um tiro no peito por considerar injusta a acusação. Peritos do Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo realizaram a necrópsia e o exame residuográfico no corpo do investigador para esclarecer se Lopes cometeu mesmo suicidio.
"Ele (Lopes) foi condenado à morte sem julgamento", disparou o delegado seccional da Polícia Civil em Campinas, Josué Ferreira Ribeiro. Para o policial, a CPI está cometendo abuso de poder. "Temos uma constituição que está acima de qualquer poder e de qualquer pessoa", afirmou. "A CPI tem um compromisso e deveria levar isso a sério", completou.
Ribeiro disse que não é contra as investigações, mas discorda dos métodos adotados. "Não precisava chegar à morte do investigador". Segundo ele, Lopes "era um dos melhores policiais da corporação" e não merecia ter seu nome sob suspeita. "Os métodos usados pela CPI desobedecem todos os procedimentos penais", afirmou.
"Nosso policial (Lopes) está morto e Willian Sozza saiu da CPI andando", disse o delegado da Dise, Miguel Voigt Júnior, referindo-se ao empresário foragido, que é apontado como líder do crime organizado na região. "Não estamos dizendo que ninguém da polícia tem relação com o narcotráfico, mas queremos uma apuração correta", afirmou.
"A maneira como a CPI conduz os interrogatórios parece um tribunal de exceção", disse o delegado do 10 distrito policial, Hamilton Caviolla. "Os depoimentos são conduzidos de forma totalmente arbitrária e sem direito a defesa", completou o delegado do 4 distrito policial, Messias Pimentel de Camargo Júnior. "A CPI cometeu os mesmos exageros da Inquisição", afirmou o delegado do 8 distrito policial, Talmir Russo Boavista.
Para os policiais que acompanharam o sepultamento, Siqueira Leite estaria se aproveitando da CPI para vingar-se. Lopes foi o responsável, há cinco anos, pela prisão do ladrão de cargas, que foi condenado e estava cumprindo pena no presídio de Piracicaba. "Todos que participaram da prisão do Gilmar agora estão sendo acusados por ele", observa o chefe dos investigadores do 6 distrito policial, Roberto Campolina.
"Para a CPI, Gilmar é o juiz e os policiais são os ladrões", afirmou o filho do policial morto, Luiz Lopes. A família do investigador não tem dúvidas de que ele se matou por não suportar a humilhação. "Ele estava muito deprimido", disse sua mulher, Angela Lopes. Ela confirmou ter ligado para o delegado da Dise na manhã de ontem, alertando sobre o estado psicológico do marido. Pouco depois, segundo a polícia, ele se matou.


