Washington, 23 (AE) - A persistência do impasse sobre a redução das barreiras ao comércio na agricultura levou hoje (23) à suspensão e a um possível colapso das negociações sobre a agenda de uma nova rodada global de liberalização, pondo em dúvida o principal objetivo da reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio (OMC), que começa na próxima terça-feira, em Seattle, na costa oeste dos Estados Unidos. Representantes de 14 países, entre eles o Brasil, abandonaram a mesa de negociações em Genebra depois de semanas de discussões, durante as quais avançaram em alguns pontos mas não conseguiram fazer progressos significativos sobre a liberalização do comércio de produtos agrícolas, que permanece até hoje largamente fora do sistema de leis e normas que regem o comércio internacional. Além da questão agrícola, outro ponto de forte desacordo é a proposta de inclusão de temas novos, como cláusulas ambientais e laborais, na agenda da Rodada, que os países industrializados defendem e as nações em desenvolvimento rejeitam como veículo disfarçado de protecionismo.
"Não fomos capazes de concordar em agricultura e isso torna as coisas muito difíceis em outras áreas", disse a embaixadora americana na OMC, Rita Hayes. Com o apoio dos EUA, o Brasil e outros grandes exportadores agrícolas, articulados no chamado Grupo de Cairns, exigem que a União Européia cumpra os compromissos de liberalização de sua superprotegida agricultura, que assumiu na negociação da Rodada Uruguai, concluída em 1994, e não honrou até hoje. Eles querem, além disso, que os europeus aceitem nova redução de barreiras agrícolas.
Em Bruxelas, o ministro de comércio da UE, Pascal Lamy, reiterou a recusa européia a essa demanda e indicou apenas uma vaga disposição de discutir níveis de apoio à agricultura e a possível redução de subsídios se os demais exportadores aceitarem incluir na negociação todos os tipos de subsídios agrícolas, inclusive à produção. Ao mesmo tempo, representante europeu procurou transferir aos Estados Unidos, país anfitrião da reunião da OMC, o ônus político pelo seu eventual fracasso. Ele disse que a preferência americana por uma agenda limitada, com um número menor de temas e um prazo de três anos para a conclusão da Rodada reflete "o horizonte curto da atual administração" e o fato de que "o ciclo político americano pesa nas negociações".
Em Washington, a representante de comércio dos EUA (USTR), Charlene Barshefsky, reafirmou os objetivos de seu país na Rodada e minimizou o significado do fracassado das negociações preparatórias em Genebra. "Não estou nem um pouco preocupada", disse ela. "Há algumas diferenças de visão, mas não acredito que, em última análise, as diferenças sejam tão profundas", acrescentou. "Isso é uma negociação; com quebras e retomadas (das conversas)". De fato, hoje mesmo surgiram sinais de que os embaixadores dos 14 países mais envolvidos na discussão do documento preparatório farão nova tentativa de chegar a um entendimento ainda esta semana.
Mas, diante do fosso das posições, que colocam países aliados num tema em lados opostos em outro, o desfecho desse esforço permanecia incerto hoje. Barshefsky, por exemplo, rechaçou completamente hoje como "indefinido" o conceito de "multifuncionalidade das fazendas", que a Europa e o Japão querem incluir na OMC para justificar a manutenção de certo nível de proteção à agricultura, por razões culturais ou outras. Ao mesmo tempo, elas respondeu às objeções do Brasil e de outros países em desenvolvimento ao reconhecimento formal, na OMC, dos vínculos entre o comércio e o tema laboral. "Essa é uma posição que não pode durar", disse ela. "Ela é intelectualmente indefensável e, com o tempo, enfraquecerá o apoio do público ao sistema de regras do comércio internacional".





