Nazaré, 23 (AE-ANSA) - A Basílica da Anunciação, a cerca de 200 metros do local onde será construída uma nova mesquita, em Nazaré, tem sido durante décadas o símbolo e orgulho de uma cidade na qual cristãos e muçulmanos vêm convivendo em paz e harmonia.
Hoje, ao contrário, é a causa de uma dura disputa entre as igrejas cristãs e os dirigentes do movimento integrista islâmico.
Ao construir uma mesquita praticamente ao lado da Basílica da Anunciação, os muçulmanos afirmam que querem voltar a discutir o caráter cristão de Nazaré, justamente às vésperas do Jubileu e da chegada do papa João Paulo II à Terra Santa.
"Receberemos o papa em Nazaré, mas em nossa cidade vivem sobretudo muçulmanos (70% dos habitantes) e ninguém impedirá que se construa a mesquita no terreno que hospeda o túmulo do xeque Shihab El-Din (um descendente de Saladin), só porque está próxima da igreja", disse hoje o líder do movimento islâmico, Salman Abu Ahmad.
Os cristãos defendem a basílica, construída no lugar onde, segundo a tradição, o arcanjo Gabriel anunciou à Virgem Maria que ela daria à luz o filho de Deus, Jesus.
"Apoiamos a construção de mesquitas em qualquer lugar de Nazaré, mas não próximo da Basílica da Anunciação, local tão querido para os cristãos", disse à ANSA Wadie Abu Nassar, porta-voz do Patriarcado Latino de Jerusalém.
A Basílica da Anunciação, a maior igreja cristã do Oriente Médio, foi construída em 1969. Mas no local da construção sempre existiu igrejas cristãs, inclusive durante a dominação islâmica.
Os franciscanos compraram o local religioso do líder druso Fakr El-Din depois de seu retorno definitivo a Nazaré, em 1620.
Nas últimas décadas, a Basílica da Anunciação converteu-se no símbolo da unidade e da irmandade entre palestinos e cristãos.
Os habitantes mais velhos ainda recordam das festas oferecidas por todos os habitantes de Nazaré ao papa Paulo VI durante sua visita antes da guerra de 1967. "Sua chegada foi saudada calorosamente por todos, sem distinções", recorda Ahmed Zuabi, um comerciante.
É muito provável que o papa João Paulo II encontre uma Nazaré menos acolhedora durante sua visita, que será realizada em março do próximo ano.
Os muçulmanos dos bairros mais pobres, mais próximos ao movimento islâmico, vêem o Jubileu como uma ocasião para reafirmar a "supremacia cristã" na cidade.
A disputa em torno da construção da mesquita agravará ainda mais a desconfiança e as rivalidades entre ambas comunidades religiosas, pondo em risco o valor simbólico de paz e coexistência pacífica que ostenta até hoje a Basílica da Anunciação.





