Brasília, 23 (AE) - O governo está preocupado com o peso das tarifas no índice escolhido para medir a inflação. Hoje o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, esteve no Palácio do Planalto em reunião com os ministros da Casa Civil, Pedro Parente, e das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, para tentar entender o mecanismo de reajuste das tarifas dos serviços públicos, hoje a cargo das agências reguladoras. Também participaram da reunião o presidente da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), José Mário Abdo e o presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), David Zylbersztajn.
Segundo fontes da área econômica o governo desconfia de que está ocorrendo abuso nesse setor. Prova disso foi o dado divulgado, na segunda-feira em Salvador, pelo diretor de Assuntos Econômicos do Banco Central, Sérgio Werlang. Ele disse que, enquanto no período de janeiro a setembro o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) -índice escolhido para medir a meta de inflação - variou 6%, as tarifas aumentaram 17%. Mesmo tirando das tarifas o petróleo, cujo preço variou no mercado internacional de US$ 10 por barril para US$ 27, as tarifas aumentaram, no período, 11%.
"É lógico que as tarifas estão pressionando a inflação", disse um assessor de Fraga. Mas o presidente do BC garantiu, na última segunda-feira, que a tendência é dos índices de inflação recuarem até o final do ano. Mesmo Fraga, assim como o ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o secretário-executivo daquela pasta, Amaury Bier, já confirmaram que, até o final do ano, a inflação deverá superar os 8% fixados pelo BC no sistema de metas divulgado em junho último. Em relação às metas dos próximos dois anos, 6% para 2000 e 4% para 2001, Fraga garantiu que não estão afetadas pelo crescimento dos índices este ano.
A preocupação do presidente do BC tem razão de ser. O órgão é responsável pela fixação das metas de inflação que constam do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Dada a meta, ela pode variar dois pontos acima ou abaixo. Ultrapassado esse limite, no entanto, o presidente do BC tem que explicar os motivos que não permitiram o seu cumprimento. Por isso o BC faz a previsão da inflação dentro de modelos econométricos para poder atuar na política monetária. Daí a importância de saber o comportamento futuro dos preços públicos, ponto central da discussão hoje no Palácio do Planalto.
O Banco Central não é o único interessado no assunto. A Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda está revendo os reajustes de energia elétrica concedidos a título de manutenção do equilíbrio econômico-financeiro das empresas do setor. Técnicos explicaram que não se trata de rever os contratos de concessão, mas a forma como eles foram aplicados na determinação dos reajustes. Além disso o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, informou que o Conselho Nacional de Desestatização (CND) está reavaliando o modelo de privatização brasileiro. Dentro do governo existe ainda um grupo de trabalho que está estudando formas de avaliar o resultado das privatizações levando em conta o ponto de vista do consumidor, o que significa analisar a privatização do ponto de vista da melhoria do serviço a preços mais baixos para o consumidor.

mockup