Paris, 22 (AE) - A reunião dos grandes da "esquerda mundial" (Blair, Jospin, Schroeder, D´Alema e Fernando Henrique Cardoso) não ficará talvez no "livro de ouro" do socialismo (embora não tenha sido tarefa fácil reunir sob as bandeiras desgastadas da "esquerda" pessoas como Clinton ou Blair - prova que as habilidades "dialéticas" continuam insuperáveis).
Em compensação, essa reunião realizada em Florença, não longe dos locais onde explodiu o Renascimento italiano com Leonardo da Vinci, Michelangelo e Júlio II, permanecerá marcada por um homem - Fernando Henrique Cardoso.
O brasileiro, no meio desses "grandes" que repetiam discursos insossos (socialismo, terceira via, blablablá) fez uso talvez de seu carisma, talvez de seu distanciamento, talvez de sua inteligência, talvez de seu "bom senso".
A palavra "bom senso" associada à palavra Cardoso dá o título à crônica que o Le Monde consagrou à reunião. "A lição de bom senso do Sr. Cardoso", escrevem Michel Bôle-Richard e Henri de Bresson.
Era para ser uma cimeira da Terceira Via, uma discussão douta sobre governança e governo, sobre o sentido do progressismo em um mundo revolucionado pelas novas tecnologias da informação. Mas foi primeiramente uma interrogação sobre a capacidade do mundo pós- Guerra Fria, liberado dos totalitarismos, de recriar uma ordem internacional mais justa em que os países emergentes ou em via de desenvolvimento não sejam mais esmagados pelos excessos anárquicos da globalização.
Ora, segundo o Le Monde, se essa cimeira das "esquerdas" não se perdeu em discussões estéreis, não aceitou a brutalidade dos fatos, foi graças a Fernando Henrique Cardoso.
"A presença de Cardoso, sua evocação sem máscara das duras realidades que a mundialização impõe aos países emergentes ou em vias de desenvolvimento marcou a cimeira. O chefe de Estado brasileiro veio desempenhar o papel de desmancha-prazeres no debate americano-europeu."
O brasileiro descreveu em termos contundentes os perigos que o fluxo e refluxo de capitais representam, para os países em desenvolvimento, que tentam introduzir reformas. O presidente da Internacional Socialista, o primeiro-ministro português Antonio Guterres, não se enganou a esse respeito. "Cardoso colocou os problemas em termos globais".
O que isso significa? "Significa que Cardoso se manifestou no sentido de evitar que as economias dos países pobres ou emergentes enfrentem sozinhas as consequências desestabilizadoras da globalização.
O jornal Libération também preferiu destacar, em vez das palavras adocicadas de Schroeder, Blair ou Jospin, as de Cardoso: "Cardoso colocou as questões corretas. As que se referem à regulação da economia mundial e aos movimentos de capitais. Defendeu a taxa Tobin ..."
Por que a imprensa francesa consagrou-se, em primeiro lugar, a Cardoso? Por causa do vigor e do talento do brasileiro? Por causa da insipidez dos outros Grandes? Mas também, provavelmente, porque estamos a oito dias de Seattle.
Começamos a perceber, de fato, que Seattle não será a "grande missa" da ordem mundial, liberal e desregulada que estava prevista. Diante da OMC (Organização Mundial do Comércio) levantam-se homens de todos os continentes que se recusam a crer na "vulgata" americana e inglesa, ou seja que o liberalismo extremo deve, pela simples ação de suas molas e polias, disseminar a prosperidade no mundo inteiro.
A abertura de Seattle será celebrada por um grupo de 2.500 pessoas, que representam 1.500 ONGs (Organizações não- governamentais). Entre os que protestam contra o liberalismo frenético constam, estranhamente, muitos norte-americanos. Mas encontramos também personalidades célebres de vários países como o francês Jose Bove, Mori Wallach, Vandana Shiva ou Maud Barlowe.
Exército heterogêneo. É evidente, por exemplo, que os anti-OMC europeus não concordam necessariamente com os anti-OMC dos países não europeus ou pobres que, por sua vez, consideram os europeus tão ferozes quanto os americanos para sufocar com seu poder e suas subvenções os únicos recursos (agrícolas e primários) dos países emergentes ou pobres.
Entretanto, ainda que na constelação dos anti-OMC ocorram clivagens, subsiste uma vontade comum para dizer que não se pode deixar a economia unicamente ao sabor dessas leis.
É por isso que alguns opositores profetizam que Seattle marcará uma data importante: o nascimento (com a ajuda paradoxal dessa rede Internet que é o próprio emblema da mundialização) do que alguns já chamam de "Internacional antiliberalista"..





