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segunda-feira, 22 de novembro de 1999
Por Ribamar Oliveira (enviado especial) 
Florença, 22 (AE) - Os diplomatas que acompanharam o presidente Fernando Henrique Cardoso em Florença ficaram preocupados com o pedido do primeiro-ministro da Alemanha, Gerhard Shrreder, para uma ação contra os "dumpings" social e ecológico. Eles acham que a posição de Shrreder antecipa as dificuldades que o Brasil terá em Seattle, Estados Unidos, no fim do mês, durante as negociações da Rodada do Milênio da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O Brasil já anunciou que pode boicotar a reunião de Seattle se os países europeus não aceitarem discutir a abertura de seus mercados agrícolas. Na avaliação do governo brasileiro, o argumento dos "dopings" social e ecológico é a mais recente invenção européia para manter o protecionismo a seus agricultores e pecuaristas.
O ministro da Agricultura, Marcos Vinícius Pratini de Moraes
diz que o Brasil não está sozinho nesta luta contra o protecionismo europeu. Segundo ele, os países que fazem parte do grupo de Cairms (Austrália, Nova Zelândia, áfrica do Sul, Canadá
Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Panamá, Venezuela, Guatemala e Costa Rica), que são exportadores de alimentos, reagirão com rigor contra o protecionismo europeu aos seus produtores agrícolas. "O boicote poderá envolver um grande número de países", disse Pratini na semana passada. "Mesmo que não seja um boicote explicito."
A diplomacia brasileira também não gostou da unanimidade dos líderes contra a proposta do presidente brasileiro, principalmente o completo desprezo que demonstraram pela taxa Topin defendida por Fernando Henrique. A taxa Tobin é uma tributação dos capitais especulativos proposta pelo economista americano James Tobin, que, de acordo com a idéia do presidente, serviria para formar um colchão de liquidez a ser administrado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial (Bird).
O dinheiro seria utilizado para evitar que a crise financeira de um país emergente se estendesse para os outros por contágio - ou seja, pela deterioração das expectativas, que levaria o pânico aos investidores. A intenção é evitar o chamado "instinto de manada", que ocorre quando todos os investidores fogem de um país ao mesmo tempo porque alguém ou algum banco importante concluiu que ali não existe mais segurança.
Durante a conferência "Progressive Governance for the 21st Century", Fernando Henrique Cardoso perguntou se os líderes dos países desenvolvidos acham razoável que países sofressem crise por contágio simplesmente porque uma "news letter" (publicação dirigida a um público específico, geralmente de um banco) chegasse à conclusão que uma nação entraria em colapso porque outra entrou.
O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, mostrou que tem outro entendimento. Para ele, a crise atinge apenas os países cujos governos não fizeram o seu dever de casa, ou seja, cuja políticas econômicas não têm credibilidade e não despertam a confiança dos mercados. Nestes casos, o "instinto de manada" seria não apenas compreensível, mas uma atitude racional.
O entendimento brasileiro é que os líderes dos países desenvolvidos foram cautelosos ao tratar do assunto, pois sabiam que suas reações causariam grande repercussão no mercado financeiro internacional. Um diplomata disse que o presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu sobre a regulação do fluxo de capitais, ainda em 1995, para os chefes de governos dos países integrantes do G-8 (Estados Unidos, Japão, Canadá, Inglaterra, Alemanha, França, Itália e Rússia). "As informações que temos é que eles aceitaram as sugestões", disse um embaixador.
Segundo ele, a decisão recente do G-8 de regular as operações "off-shore", uma das preocupações demonstrada pelo presidente brasileiro, mostra que os países desenvolvidos estão regulando gradualmente o mercado financeiro. As operações "off-shore" são aquelas feitas em paraísos fiscais e que geralmente estão relacionadas com a lavagem de dinheiro ou com o narcotráfico.
Irritação - A mesma condescendência não foi demonstrada pelos diplomatas em relação às afirmações de Gerhard Shrreder. "O alemão foi grosseiro", disse um embaixador, irritado.
Futuro - Contrariando as expectativas mais otimistas, a primeira reunião da Terceira Via não produziu uma declaração conjunta dos líderes que debateram durante todo o domingo. "Isto não estava previsto", disse um diplomata. Pode até ser. Mas uma declaração conjunta daria mais substância a um movimento que o mundo ainda não sabe como qualificar. O primeiro-ministro da Itália, Massimo DAlema, que foi o dirigente dos trabalhos, pediu apenas que cada um dos líderes presentes falasse sobre suas perspectivas sobre o futuro. Fernando Henrique Cardoso foi o primeiro a falar.
O presidente brasileiro insistiu na sua tese de que o fenômeno da globalização não está sendo acompanhado por regulamentações adequadas. "Existe um enorme déficit de governabilidade", afirmou. Para ele, é preciso ousar, como os líderes políticos do final do século dezenove fizeram. Fernando Henrique reafirmou sua crença em um meio termo entra a social-democracia tradicional e a direita que professa "o fundamentalismo de mercado".
O primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair, disse estar consciente do perigo da extrema direta assumir o poder, se a Terceira Via não for capaz de dar respostas aos problemas do presente. Segundo ele, os termos liberal, socialista, social-democrata não têm mais significado para os cidadãos comuns. Na sua avaliação, todos desejam apenas um governo que lute pela eficiência econômica, mas que preserve os valores humanitários.
O primeiro-ministro da França, Lionel Jospin, reafirmou sua convicção de que o fenômeno da globalização não pode acabar com as identidades nacionais. Pediu também que os Estados Unidos tenham consciência de sua responsabilidade como nação hegemônica.
O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, pediu cuidado por parte dos países pobres e emergentes com o meio ambiente e disse que não é por meio da poluição que as nações se tornarão ricas. Lembrou que já existem tecnologias que podem ajudar os países a se desenvolverem preservando a natureza. Clinton concordou que as nações precisam preservar suas culturas diante da globalização.
Talvez o primeiro-ministro da Itália, Massimo DAlema, tenha expressado a síntese da conferência "Progessive Governance for the 21st Century". "Nós estamos à procura de um novo modelo político", disse antes de encerrar o encontro.
O presidente Fernando Henrique Cardoso deixou o Grand Hotel, em Florença, hoje, por volta das 10 horas (7 horas no Brasil) Acompanhado da primeira-dama, Ruth, e de alguns integrantes do governo, ele embarcou, às 11h30, de volta ao Brasil. O avião do presidente faria uma escala em Portugal.


