Lisboa, 22 (AE-IPS) - O primeiro-ministro de Portugal, Antônio Guterres, é o novo presidente da Internacional Socialista (IS), mas ele manteve um cauteloso silêncio este fim de semana em Florença, Itália, onde os pesos pesados da social-democracia mundial travaram uma amistosa guerra.
No encontro "O reformismo no século 21", praticamente não houve concordância entre o primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, e o já célebre dueto formado pelo presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, defensores do neoliberalismo econômico com sensibilidade social.
Em seu congresso mundial, este mês em Paris, a IS adotou uma plataforma ideológica que identifica o papel da social-democracia como mediadora social, mas sem fazer - pela primeira vez em sua controvertida história - menção ao papel dos trabalhadores na vida social.
A plataforma destaca, ao contrário, a necessidade de os socialistas darem um papel mas relevante à iniciativa privada individual como método de produção de riquezas e de nivelação social.
O senador e líder social-democrata chileno Anselmo Sule, ex-vice- presidente da IS, advertiu Guterres em Paris que ele deve tentar conduzir uma Internacional genuinamente global e não eurocentrista. Ele pediu para que seja lembrado que no mundo atual existem "globalizadores e globalizados".
Clinton não participou da reunião da organização fundada no final do século 19 por Friederich Engels, o principal colaborador de Karl Marx, mas, sim, teve presença destacada no encontro florentino, no qual sugeriu o nascimento de um novo grupo político transnacional que agruparia todos os partidários da chamada Terceira Via.
Entre outros, participaram da reunião em Florença Clinto, Jospin, Blair, Guterres, o primeiro-ministro italiano, Massimo DAlema, o presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, o presidente da Comissão Européia, o italiano Romano Prodi.
A chamada Terceira Via é a plataforma ideológica de Blair, batizada por Anthony Giddens, diretor da prestigiosa London School of Economics, que tenta refundar a esquerda segundo os parâmetros dos anos 90: o colapso do comunismo e o triunfo da economia de mercado, o capitalismo.
O primeiro-ministro francês lançou nesta segunda-feira uma candente defesa dos valores tradicionais do socialismo democrático, num artigo publicado pelo diário espanhol El Pais.
Jospin destaca que enquanto a social-democracia tenta superar uma de suas maiores crises existenciais, ela tem obtido vitórias eleitorais sem precedentes nos principais países da Europa: Alemanha, França, Grã-Bretanha e Itália. Isto se deve, disse, ao fato de que "as esperanças dos neoliberais se desvaneceram".
A Terceira Via, escreveu Jospin, só é aceitável como um "nome diferente" para a política dos novos trabalhistas britânicos. Mas "se a Terceira Via implica encontrar uma posição intermediária entre a social-democracia e o neoliberalismo, este não é meu caminho".
"A opção é clara", acrescentou: "Adaptar-se à realidade, sim. Render-se a um modelo capitalista inevitável e chamado de natural, não", e defendeu o Estado de Bem-Estar Social dos países europeus, que "por motivo nenhum deve ser desmantelado".
Clinton e Blair, ao contrário, sustentam uma política oposta, com o apoio condicional de Schroeder e DAlema, cujos eleitorados e alguns de seus aliados nas coalizões de governo parecem pouco convencidos das virtudes do neoliberalismo.
Em Florença, Clinton tocou em novos parâmetros ao sugerir que a promoção de acesso à Internet é uma das fórmulas para se reduzir as desigualdades globais. "Os povos da áfrica não são diferentes dos da América (EUA). Se lhes dão acesso à tecnologia, um monte de gente atenta perceberá como ganhar dinheiro".
Segundo estudos das Nações Unidas, três quartos da população mundial vivem em condições de pobreza relativa ou absoluta, e não têm acesso regular a telefones e outros serviços como eletricidade, água potável, saúde e educação.
Clinton também defendeu a idéia de se cancelar a dívida externa oficial dos países mais pobres, pois ela impede o desenvolvimento de investimentos e mercados.
Enquanto Jospin propõe o estabelecimento de regras para controlar a evolução do capitalismo na era da globalização, Clinton e Blair sustentam o fortalecimento dos organismos internacionais de liberação do comércio e dos investimentos, que desfavorecem os países em desenvolvimento.
Como Giddens, Jospin admite que a social-democracia perdeu parte de sua razão de ser depois do colapso do comunismo, há dez anos. De origem comum marxista, a social-democracia e o comunismo adotaram posições distintas depois da formação da União Soviética, em 1917.
A separação ideológica entre os social-democratas e os comunistas teve início depois do fracasso da insurreição popular russa de 1905, da qual Vladimir Lenin - o fundador do Estado soviético - extraiu as lições políticas e militares que definiram mais tarde tanto a estrutura estatal como a do Partido Comunista russo.
Depois da Segunda Guerra Mundial, os social-democratas europeus impulsionaram, a partir de suas posições sindicais, profundas reformas sociais que resultaram no "Estado de Bem-Estar Social", a resposta européia - em condições de liberdade e pluralismo político - ao igualitarismo vertical dos Estados comunistas.
Nenhuma força política européia defende hoje o estabelecimento de regimes de ditadura do proletariado, mas se trava uma acirrada batalha entre os defensores do Estado de Bem-Estar - que implica elevados impostos e custosos gastos fiscais - e os neoliberais.

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