Manaus, 22 (AE) - O envolvimento de Soraya Lilia Trucinskas, de 35 anos, com adoções internacionais repercutiu negativamente entre os magistrados da área da infância e juventude e poderá ser investigado pela Polícia Federal do Amazonas. Soraya é a proprietária da agência de adoção Adoption Consultant Facilitator Co. e também a autora da denúncia de cobrança praticada pela agência americana Limiar.
Além desses fatos, ela ocupa o cargo de assistente jurídica da Corregedoria-Geral do Tribunal de Justiça do Amazonas. O corregedor-geral é o pai de Soraya, o desembargador Daniel Ferreira da Silva, também membro da Comissão Judiciária de Adoção Internacional do Estado do Amazonas. "O interesse de Soraya é exatamente monopolizar, em seu próprio interesse, a adoção em caráter internacional", afirmou o juiz da Infância e Juventude Rafael Romano. "Peço que a Polícia Federal, imediatamente, proceda a uma investigação nesse sentido."
O promotor público público Caio Bessa Cirino, especialista nas questões que envolvem a criança e adolescente, disse que as denúncias feitas por Soraya Trucinskas contra a agência Limiar mostram sua conduta antiética de denegrir a imagem de uma entidade, sendo ela, proprietária de outra. "Não se trata de um comércio de crianças que vai dar lucro", disse Cirino. "Eu lamento essa conduta que fere o artigo 239 do Estatuto da Cirança e do Adolescente", disse.
Segundo o artigo 239, "promover ou auxiliar a efetivação de ato destinado ao envio de criança ou adolescente para o exterior com inobservância das formalidades legais ou com fito de obter lucro" pode levar a pena de reclusão de 4 a 6 anos, além de multa. Nesse caso, o crime pode ser investigado pelo Ministério Público Federal, disse uma fonte do judiciário federal. O que pesa contra Soraya é que, sendo servidora pública estadual, não poderia ter um negócio nos Estados Unidos, nem mesmo morar no exterior, recebendo remuneração do judiciário amazonense, disse outro magistrado. Isso é inconstitucional, afirmou.
O próprio Tribunal de Justiça do Amazonas poderia investigar as ligações de Soraya com as adoções internacionais por meio da Corregedoria-Geral. Mas ela é filha do desembargador corregedor Daniel Ferreira da Silva, que está sendo investigado pelo Superior Tribunal de Justiça por suspeita de favorecer narcotrficantes com alvarás de soltura. "Em nível interno essa investigação não seria possível haja vista as estreitas ligações entre ambos", disse o advogado Abdalla Isaac Sando Júnior, autor da representação que desencadeou a investigação sobre a venda de alvarás de soltura pelo Ministério Público Federal do Amazonas.
As suspeitas levantadas contra Soraya Trucinskas foram publicadas pelo jornal O Estado de S.Paulo na edição de domingo. Soraya e suas irmãs e irmãos - todos trabalham no Judiciário do Amazonas - participaram de uma solenidade, no salão nobre do TJ, hoje pela manhã, em homenagem aos aniversário de 69 anos do desembargador Ferreira da Silva. A imprensa não teve acesso ao local.
Nos bastidores do tribunal, os funcionários não comentam os fatos que envolvem a família do corregedor. Um funcionário público que não quis se identificar disse que pesa contra Alexandre Adroaldo da Silva - filho de Ferreira da Silva - e Gerson Riebisch de Figueiredo - ele é advogado, marido da irmã de Soraya, a juíza Simone Laurente de Figueiredo, uma acusação de falsidade ideológica. Alexandre e Gerson foram acusados de receber R$ 3 mil para defender o preso Rodilene da Silva Bastos.

Segundo a autora da representação no Ministério Público Federal, Francisca Peixoto Zagury, Alexandre apresentou-se como advogado sem ter concluído o curso. O suposto advogado não conseguiu o relaxamento da prisão de Bastos. O irmão de Soraya Trucinskas também é investigado pelo STJ. Ele é suspeito de assinar, pelo pai, alvarás de soltura para acelerar processos no TJ do Amazonas.
Suspensão - O corregedor-geral da Justiça e presidente da Comissão Estadual Judiciária de Adoção do Paraná (Ceja), desembargador Osiris Fontoura, disse hoje, em nota distribuída pela Assessoria de Imprensa, que o credenciamento da Limiar continuará suspenso até a conclusão do processo instaurado para apurar sua atuação. Por meio da assessoria, nega ter recebido qualquer e-mail, enviado por Soraya Trucinskas. Segundo a nota, todas as investigações tiveram origem em matérias jornalísticas.

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