Buenos Aires, 19 (AE-IPS) - Numa atitude sem precedentes, cinco mil atores e atrizes da Argentina decidiram não dar mais entrevistas às tevês por tempo indeterminado. Protestam contra o excesso de programas nos quais eles participam como convidados sem receber nada e com prejuízo para os espaços destinados à ficção.
Antonio Spina, da Associação Argentina de Atores, disse que em 1994 as TVs tinham 50 programas ficcionais com atores argentinos. Este ano, exibem somente 11. Para a associação, as produtoras, canais e apresentadores ganham fortunas às custas dos atores a quem entrevistam e, no final, ao invés de cachê, recebem apenas um "muito obrigado".
As emissoras de TV e produtoras reagiram com ameaças à greve. As tentativas de negociação fracassaram. A queda de braço é forte. Os atores não querem suspender a medida. A outra parte oscila entre pedir que o façam ou advertir que sobreviverão sem os artistas.
Segundo a associação, desde que a medida de protesto começou, no começo deste mês, diminuiu o número de aparelhos de tevê ligados em horários de programas em que os atores não aparecem. Os produtores têm outra explicação. Para eles, com a chegada da primavera "o calor aumenta e as pessoas desistem de assistir televisão". E fazem uma ameaça: No ano que vem, as TVs não precisarão mais dos atores.
A diminuição de textos ficcionais na televisão argentina se explica, segundo produtores e canais, a uma preferência do setor por programas mais baratos de entretenimento, convidados, talk-shows ou programas de variedades sobre o mundo dos espetáculos.
Segundo a associação, cada vez mais a televisão na Argentina mostra atores participando de gincanas, contando piadas ou revelando seus amores, fracassos, divórcios ou brigas familiares. Para participar desses programas, os atores recebiam US$ 40 já com os descontos para o sindicato. Uma cifra que eles consideram ridícula diante dos milhares de dólares mensais que recebem quando conseguem participar de uma novela ou mesmo série.
Durante muito tempo o meio artístico argentino aceitou que os artistas que iam a esses programas como convidados não só circulavam pelo ambiente como se expunham para possíveis contratos, além de se promoverem. Desta forma, era comum que ao final da aparição os artistas aproveitavam para dizer em que peça teatral estavam ou em que filmes iam aparecer. Este é o argumento que os canais de TV e produtoras têm. Para eles, se cobrassem por esse trabalho, os artistas deveriam, no mínimo, pagar US$ 10 mil por aparição.
O problema apareceu este ano. Desempregados, muitos atores não tinham o que promover e eram somente usados para aumentar a audiência. Para Spina, os artistas não querem ganhar prêmios. "O que queremos é contar a história de um escritor, de um roteirista, que é coordenada por um diretor e interpretada por atores". Como parte dos protestos, os atores estão usando um broche onde se lê: "Somos atores, queremos atuar". Segundo a associação, 95% da categoria aderiu.

mockup