São Paulo, 19 (AE) - O dramaturgo Plínio Marcos, de 64 anos, morreu hoje às 16 horas, no Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas , em São Paulo. Ele teve falência múltipla de órgãos. Plínio Marcos, 64 anos, estava internado desde o dia 23, em decorrência de uma crise convulsiva, sofrida quando se recuperava de um acidente vascular sofrido em agosto.
No dia 27 um novo acidente vascular provocou a sua transferência para a Unidade Clínica de Coronariopatia Aguda (UCCA), onde sofreu uma traqueostomia e, desde então, permaneceu insconsciente a maior parte do tempo. O corpo do dramaturgo está sendo velado no Teatro Sérgio Cardoso e será cremado amanhã.
Ator e autor de novelas, contos, romances e mais de 40 peças teatrais - nem mesmo sua última companheira, a jornalista Vera Artaxo, sabe exatamente quantas peças ele escreveu ao longo de 42 anos de carreira - Plínio Marcos de Barros nasceu no bairro de Macuco, em Santos, em 1935. Filho de seu Armando e dona Hermínia, um casal de classe média baixa, a chamada família "remediada" da época, Plínio era canhoto, uma característica de fundamental importância em seu destino. "Na época, os professores obrigavam os canhotos a escrever com a mão direita e isso foi tão angustiante para mim que abandonei a escola", contou o dramaturgo, na abertura da programação Quem Tem Medo de Nelson Rodrigues e Plínio Marcos, este ano, no Teatro de Arena.
A combinação entre a liberdade do garoto ocioso e a atração pela arte circense - "e a inveja do poder de sedução do palhaço sobre as mulheres", como contaria mais tarde -, levou Plínio a entrar para o circo. Ainda adolescente adotou o nome de palhaço Frajola no Circo Pavilhão Teatro da Liberdade, de João Dempsom, que tinha instalações fixas em Macuco.
Aos 22 anos, já como ator de dramas como "Os Transviados" e "O Morro dos Ventos Uivantes", adaptações livres para o picadeiro de histórias conhecidas, foi "descoberto" por Patrícia Galvão, a Pagu, musa da Semana de Arte Moderna de 22. "Ela precisava de um ator capaz de decorar texto de um dia para o outro para um papel em "Pluft, o Fantasminha", e eu fui indicado", contou Plínio, que aproveitou para mostrar a Pagu sua primeira peça teatral, "Barrela", escrita em 1958.
Genial - Imediatamente foi aclamado como uma genial revelação do teatro brasileiro. "Um talento esmagador", como diria na época o já consagrado Nelson Rodrigues. Com o reconhecimento de seu talento, porém, a censura entraria em sua vida como um grande e constante pesadelo.
A montagem de "Barrela" foi interditada pela censura, assim como todas as suas 20 peças seguintes. Depois de uma única apresentação, feita à revelia da censura, Barrela seria definitivamente liberada apenas em 1980. Plínio somente veria uma peça de sua autoria subir ao palco aos 32 anos de idade, quando foi encenada "Dois Perdidos Numa Noite Suja", em seguida também censurada.
Em 1971, chegou a declarar que iria desistir de escrever
desestimulado pelo fato de ter mais de 20 peças já escritas, entre elas "Navalha na Carne" e "Abajur Lilás", todas censuradas. "O teatro só tem sentido quando o palco é uma tribuna livre, onde se possa discutir até as últimas consequências os problemas do homem." Entre os méritos do dramaturgo está o de ter seguido escrevendo sem jamais fazer concessões, mesmo sofrendo da angústia de ser um prestigiado dramaturgo inédito.
Plínio mudou-se de Santos para São Paulo em 1962 e fez de tudo para sobreviver. Grande contador de casos, escreveu e publicou histórias como "Na Barra do Catimbó e Querô", transformando-se em camelô cuja mercadoria eram seus próprios livros. Foi também técnico na extinta TV Tupi, onde na década de 70 alcançou enorme popularidade já como ator, no papel de Vitório na novela Beto Rockfeller.
A atração pela vida mambembe, o gosto pelo papo de botequim e o tema de peças como "Barrela", ambientada numa cela de cadeia, ou "Navalha na Carne", num hotel de quinta categoria, contribuíram para forjar uma falsa imagem de Plínio Marcos. Muitos o confundiam com seus personagens e o viam como uma espécie de marginal, um dramaturgo talentoso e ignorante, imagem que ele mesmo reforçava em entrevistas nas quais se dizia "analfabeto". Nada mais distante da realidade.
Além de ter tido uma infância feliz com a família, desde adolescente era leitor voraz. Como dramaturgo, nunca deixou de assumir a influência de outros escritores, entre eles o amigo Nelson Rodrigues. "Ele abriu o caminho; para quem veio depois dele, tudo ficou mais fácil."
Apesar da pressão de artistas e da imprensa, a grande maioria de suas peças só seria liberada na década de 80. Em 1985
ele recebeu o Prêmio Molire de autor por "Madame Blavatisky"
uma personagem mediúnica interpretada por sua ex-mulher, a atriz Walderez de Barros, com quem ele foi casado por 20 anos e com quem teve três filhos. Entre eles, o dramaturgo Léo Lama, que em seu último espetáculo, "Baudelaire, o Pai do Rock", presta homenagem ao pai. "Certa vez ele disse ao presidente Sarney que ambos eram imortais: Sarney por ser membro da ABL e ele por não ter onde cair morto", lembrou Léo, que se apropriou da brincadeira em sua peça, deslocando-a para o poeta maldito Baudelaire.
Justamente na década em que começa a ser encenado, Plínio sofre um enfarte, em 1985. Três anos depois, sobe ao palco sua primeira peça infantil, "O Coelho e a Onça". No ano seguinte, Plínio Marcos enfrenta o tema da aids em "A Mancha Roxa", cuja ação se passa numa cela, como em Barrela, porém desta vez numa prisão de mulheres. Em maio de 1995, Plínio internou-se para realizar uma cirurgia na perna. Em junho do mesmo ano, sofre outro enfarte, que o obrigou a submeter-se a uma cirurgia para a colocação de pontes de safena.
Nos últimos anos, as lembranças do circo invadiram com mais força sua obra. "O Assassinato do Anão", peça inédita de sua autoria dirigida ano passado por Marco Antônio Rodrigues, tinha o circo como cenário e tema. O mesmo universo é retratado nos contos de O Truque dos Espelhos", lançado este ano pela Una Editoria.
Há dois anos, Vera Artaxo vem batalhando pela publicação das obras completas do dramaturgo. Um sonho que Plínio queria ver realizado e para tanto chegou a reescrever textos cujos originais se extraviaram. Infelizmente, o casal não conseguiu apoio financeiro para levar em frente a empreitada.

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