Brasília, 19 (AE) - O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, d. Raymundo Damasceno, condenou hoje os atos violentos que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) vem adotando, como a destruição de um pedágio em Boituva, a ameaça de invasões de terras produtivas e saques como os promovidos por assentados acampados em frente a fazenda do presidente Fernando Henrique Cardoso. D. Raymundo sugere ao MST uma estratégia mais estrutural para alcançar seus objetivos.E o caminho seria a próxima eleição municipal. A
O secretário-geral da CNBB afirmou que o MST deve apoiar candidatos ou lançar nomes próprios para as eleições municipais do próximo ano, como forma de reforçar a luta pela reforma agrária no País. "O MST pode apoiar candidatos afinados com suas propostas, mas pode ele mesmo lançar candidatos de seus próprios quadros, se assim julgar conveniente e oportuno, como forma de mudar a questão fundiária no nosso país", disse d. Damasceno.
"O MST eu não sei se é movimento político e nem sei se pretende alcançar pelo voto cargos públicos para defender suas propostas, mas eu creio que o caminho é por aí", reforça d. Damasceno. Um dos principais líderes do MST, o economista João Pedro Stédile, declarara recentemente que pretendia incentivar militantes com habilidade política a participarem das eleições.
Segundo d. Damasceno, as eleições municipais são uma oportunidade para que os movimentos sociais promovam mudanças a partir da base. "Num município pequeno você sabe se aquele candidato que está pleiteando o cargo tem um passado que demonstre se ele está comprometido com o social", argumentou. Ele admite que as eleição de partidários da reforma agrária é um caminho mais demorado. "São passos lentos, porém seguros em busca da democracia social", argumenta. "A maneira de mudar no regime democrático e de alterar os rumos da política é pelas eleições."
Pressão - Ele, porém, mantém a defesa da pressão sobre o Executivo para acelerar o processo de divisão das terras, desde que sem radicalização. "A igreja não prega a solução dos problemas sociais pela violência, mas é importante que a sociedade se organize", ressaltou. "Em um regime democrático, ela tem o direito e o dever, às vezes, de exercer pressão sobre o poder público para conseguir alcançar reivindicações que sejam justas e que sejam exigidas pela dignidade da pessoa humana e pelo bem comum", disse d. Damasceno.
Críticas - A Igreja diz que a reforma agrária não se resume apenas a distribuir terras, mas em uma política agrícola que dê condições para os assentados produzirem, comercializarem seu produtos. "A reforma agrária precisa ser mais rápida, mais ágil, mais corajosa", afirmou o secretário-geral. "Se organizar, manter a pressão e também fazer propostas ao governo para que ele continue seu programa de forma mais eficiente, isso é fundamental."
"A sociedade organizada tem instrumentos de pressão, pressão política, manifestações e também exercendo uma influência na opinião púbica em geral, para que ela também cobre do governo essa promessa da campanha eleitoral", disse d. Damasceno. "São formas de pressão sem chegar à depredação de bens públicos, sem invasões de supermercados", afirmou.
Dívida - A igreja, diz d. Damasceno, defende a prioridade na aplicação de recursos em programas sociais. "O governo não pode desviar recursos da reforma agrária para pagamento da dívida externa", protestou. "Não se pode sacrificar o povo em suas necessidades e direitos fundamentais em benefícios de instituições financeiras internacionais para pagar os juros, os serviços de uma dívida", emendou. "A sociedade não atendida nestes direitos, deve manifestar-se com vigor, mas sem violência".

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